|
Balsemão
(Luís Pinto de Sousa Coutinho, 1.° visconde de).
n. 27 de Novembro de 1735.
f. 14 de Abril de 1804.
Fidalgo
cavaleiro da Casa Real, por sucessão a seus maiores; conselheiro de
Estado; ministro e secretário
de Estado dos Negócios do Reino, da Guerra e dos Estrangeiros; 1.°
senhor donatário de Ferreiros e Tendais, por decreto de 17 de Abril
de 1792, e de juro e herdade, por decreto de 13 de Maio de 1796, em
recompensa dos serviços prestados na direcção, expedição e
negociações relativas ao Exército Português que tomou parte na
campanha do Rossilhão; 20.º senhor do morgado de Balsemão, em
virtude da renúncia feita por seu irmão mais velho, José Luís
Pinto, ainda em vida de seu pai, por termo de 23 de Outubro de 1759,
e dos morgados e casas de Sá, Toens e Leomil, bem como da capela da
Santíssima Trindade, instituída na sé de Lamego; alcaide-mor
da vila de Cano e comendador da respectiva comenda na Ordem de S.
Bento de Avis; enviado extraordinário e ministro plenipotenciário
na corte de Londres; plenipotenciário por parte de Portugal, para
ajustar o tratado de paz (de Badajoz) entre a França, Espanha e
Portugal, em 1801; comissionado para a entrega da infanta D. Mariana
Vitória, que casou com o infante de Espanha, D. Gabriel, e para
receber, a infanta de Espanha, D. Carlota Joaquina, esposa do príncipe
D. João, depois rei D. João VI; capitão-general e governador da
capitania de Mato Grosso; director dos
estudos estabelecidos no mosteiro de S. Vicente; cavaleiro da Ordem
do Tosão de Ouro; grã-cruz da
Ordem de S. Bento de Avis; tenente-general do exército.
Nasceu em
Leomil a 27 de Novembro de 1735, faleceu em Lisboa a 14 de Abril de
1804. Era filho de Alexandre Pinto de Sousa Coutinho, fidalgo
cavaleiro da Casa Real, por alvará de 18 de Março de 1706; mestre
de campo dos Auxiliares da comarca de Lamego; familiar do Santo Ofício,
por carta de 15 de Abril de 1748; 19.º senhor do morgado de Balsemão;
casado com D. Josefa Mariana Madalena Pereira Coutinho de Vilhena,
filha e herdeira de José de Sá Coutinho, fidalgo da Casa Real,
cavaleiro professo na ordem de Cristo, capitão-mor da vila de
Leomil; senhor do morgado de Sá ou de Leomil.
No
Quadro elementar das relações
políticas e diplomáticas de Portugal, etc., pelo visconde de Santarém, diz-se
que Luís Pinto viajou pela Itália, Alemanha e França, e que
depois acompanhou as caravanas como cavaleiro de Malta. Alistando-se
no exército, tinha chegado ao posto de tenente-coronel
de artilharia, quando, em 1767, foi escolhido para governar uma das
capitanias do Brasil. Nomeado por carta régia de 21 de Agosto desse
ano, governador e capitão-general de Cuiabá e Mato Grosso,
embarcou para a América e, chegando a Vila Bela a 2 de Janeiro de
1769, tomou no dia seguinte posse do cargo, que lhe foi entregue
pelo seu antecessor João Pedro da Câmara. São notáveis os
melhoramentos a que procedeu, os quais vêem minuciosamente
mencionados no referido Quadro
elementar. Durante todo o tempo do seu governo, Luís Pinto
vivia em contínuo desassossego, receando guerra com os castelhanos,
não só pelo que encontrara tomando conta da capitania, como pelas
notícias que de quando em quando lhe traziam os índios foragidos
ou os negociantes portugueses. Além do corpo de auxiliares que
tinha criado, organizou também uma legião de hussares, e em
Julho de 1771 ordenou um novo recrutamento de tropas, que só á
custa de grandes violências se realizou. Seguiu-se
uma época tumultuosa, em que os caiapós, assaltaram e destroçaram
o povo das minas do Remédio, matando muitas pessoas. Os assaltos
continuavam e cometiam-se
as maiores atrocidades; o povo pedia auxílio, porém os
governadores nesse tempo tinham mais em vista aumentar o rendimento
do Estado, e Luís Pinto, apesar de ser homem ilustrado e adoptar na
sua capitania algumas providências a bem dos povos sujeitos ao seu
mando, não pôde eximir-se por
completo às ideias do seu tempo, e pouca atenção prestou às
reclamações. Adoecendo com uma pertinaz e grave oftalmia, obteve
ser exonerado do cargo de capitão-general, e entregando o governo
ao seu sucessor, Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, a
13 de Dezembro de 1772, regressou a Portugal. Pouco tempo, porém,
esteve em sossego, porque no princípio de Março de 1774 foi
nomeado nosso ministro em Londres, para onde partiu em Maio seguinte.
Havia
casado em 21 de Agosto de 1767, com D. Catarina Micaela de Sousa César
de Lencastre, senhora muito ilustrada e distinta poetisa (V. 1.ª
viscondessa de Balsemão), filha de Francisco Filipe de
Sousa da Silva Alcoforado, fidalgo da Casa Real; senhor da casa de
Vila Pouca em Guimarães; familiar do Santo Ofício; e de sua
mulher, D. Rosa Maria Viterbo de Lencastre.
Luís
Pinto conservou-se
em Londres até 1788; viera a Lisboa em 1783 com licença, mas
voltara para a corte inglesa, regressando no ano de 1788 também com
licença; dando-se, porém,
o falecimento do marquês de Angeja e do confessor da rainha D.
Maria I, frei Inácio de S. Caetano, houve reorganização do ministério,
em que ficaram os
antigos ministros, o visconde de Vila Nova da Cerveira, mais tarde
marquês de Ponte de Lima, e Martinho de Melo e Castro, entrando
para o reino José Seabra da Silva, e para a guerra e estrangeiros
Luís Pinto, futuro visconde de Balsemão. Tanto no Quadro
elementar, do visconde de Santarém, como na História
política e militar de Latino Coelho, e na História
da Guerra civil, de Luz Soriano, se fala muito desfavoravelmente
de Luís Pinto acerca do seu governo, especialmente na situação em
que Portugal se viu durante a revolução francesa, que começou
logo depois de se ter reorganizado o ministério em 1788. Os
primeiros tumultos do povo, e mesmo a tomada da Bastilha em 1789, não
causaram grande influência em Portugal porém os rápidos
progressos da revolução obrigaram seriamente a pensar; a Gazeta
de Lisboa deixou
de falar na França, ou pelo menos dos acontecimentos políticos que
se estavam passando, e o governo tratou dos meios da afastar das
nossas fronteiras o contágio das novas ideias, e de ser agradável
ao exército. Decretou-se
então que os voluntários servissem unicamente seis anos,
distinguiram-se
com várias honras os que ocupavam os postos superiores da milícia,
foi aumentado o soldo de todos os oficiais e criada a Academia Real
de Fortificação e Desenho; em Abril de 1790 formou-se
na tapada da Ajuda um campo de manobras em que, sob o comando do
general Valleré, se exercitou uma brigada de infantaria, e em
Setembro do mesmo ano se realizou um novo acampamento na Porcalhota,
comandado pelo conde de Oeynhausen, no qual se reuniram para
manobras duas brigadas de infantaria, uma de cavalaria e alguma
artilharia. A 15 de Novembro do referido ano de 1790 se decretou
nova organização da artilharia e infantaria, e se criou uma guarda
do corpo, que foi alojada perto do palácio da Ajuda, sendo os
oficiais todos escolhidos na mais alta nobreza. Deste modo se ia
preparando o governo português para resistir a quaisquer tentativas
revolucionárias, que se manifestassem no país.
A 26 de Setembro de 1793 assinou-se
em Londres o tratado de mútuo auxílio entre Portugal e a
Inglaterra, sendo plenipotenciários D. João de Almeida Melo e
Castro e lord Grenville. A
convenção com a Espanha foi firmada em Madrid, a 15 de Julho do
referido ano de 1793. A situação de Portugal cada vez se tornava
mais crítica. A Inglaterra aproveitava o auxílio da nossa força
naval no bloqueio das costas francesas, mas não protegia as nossas;
a Espanha escarnecia de nós, e quando Luís Pinto pedia os socorros
estipulados pelos antigos tratados, os mesmos que ela invocou para
lhe mandarmos uma divisão ao Rossilhão, respondia primeiro com
evasivas, e por fim com uma negativa terminante. A 23 de Fevereiro
de 1798 oficiava o nosso ministro dos estrangeiros ao representante
português em Londres, mostrando-lhe
a necessidade que o governo de Lisboa tinha de ser auxiliado pela
Inglaterra, com um subsídio de 600.000 libras esterlinas para fazer
face às despesas da guerra; mas a resposta foi que o gabinete inglês
não só não podia dar dinheiro, nem armas, nem soldados, mas que
se via até obrigado a retirar de Portugal três dos regimentos que
entravam nas pequenas forças, que tinham vindo
no ano anterior. Sempre hesitante, sempre irresoluto,
inclinando-se
ora para a Espanha, ora para a França ou para a Inglaterra, Luís
Pinto conseguiu somente que Portugal se encontrasse inteiramente só,
no meio da situação tristíssima em que se envolvera, e assim
deu causa aos terríveis desastres que sofreu a nossa pátria nos
primeiros anos do século XIX.
A Espanha declarava que tinha
grandes desejos de ver celebrada a paz entre Portugal e a república
francesa, mas a sua verdadeira intenção era fazer guerra a
Portugal. Trocaram-se
muitas notas diplomáticas entre as cortes espanhola e portuguesa, e
as respostas de Luís Pinto deram resultado à formal declaração
de guerra no dia
2 de Março de 1801. Tratou o nosso governo de activar os
preparativos militares, indispensáveis para repelir o agressor na
entrada; da triste situação em que se encontravam nessa época o
nosso exército e as nossas praças, era ainda culpado Luís Pinto,
por que, tendo estado incumbido da pasta da guerra desde a sua
entrada para o ministério, só a deixará ao duque de Lafões,
quando, a 6 de Janeiro de 1801, o príncipe regente deu nova
organização ao gabinete. Nessa organização foi Luís Pinto
encarregado da pasta do reino, ficando a dos estrangeiros confiada a
D. João de Almeida Melo e Castro, mas como este diplomata estava em
Londres, e ali se conservou até fins de Junho, Luís Pinto
continuou a dirigir a nossa política externa até essa data, e,
nessa qualidade, foi quem negociou o humilhante tratado de Badajoz,
que pôs termo à vergonhosa campanha de 1801. Desde então, a
vida política de Luís Pinto limitou-se à gerência dos negócios
do Reino, até que, pela exoneração de D. João de Almeida, voltou
a dirigir a secretaria dos estrangeiros, mas por pouco tempo,
porque, adoecendo gravemente, veio a falecer em 1804.
O
príncipe regente D. João concedeu-lhe o título de visconde de
Balsemão de juro e herdade, dispensada duas vezes a Lei Mental, por
decreto
de 14 de Agosto de 1801. O brasão fora concedido a Luís Pinto,
filho de Álvaro
Pinto, e bisneto de Pêro Vaz
Pinto, todos fidalgos; dado em Lisboa a 8 de Junho de 1514. É o
seguinte: Um escudo; em campo de prata cinco crescentes vermelhos em
aspa. Timbre, um leão de prata com a língua e unhas vermelhas,
tendo na espádua um crescente.
O visconde de Balsemão
escreveu: Memória sobre a descrição física e económica do
lugar da Marinha Grande, inserto no tomo V das Memórias Económicas
da Academia Real das Ciências; Écloga à morte duma dama, escrita
em 181 versos hendecassílabos soltos. Atribui-se-lhe a tradução
em verso solto do poema Arte da Guerra, de Frederico li, rei
da Prússia.
Transcrito por Manuel Amaral
Genealogia do 1.º visconde de Balsemão Geneall.pt
|