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Filipe IV de Espanha e III de Portugal.
n.
8 de Abril de 1605
f. 7 de Setembro de 1665
O Grande. Nasceu em
Madrid a 8 de Abril de 1605, onde também faleceu a 7 de Setembro de
1665. Era filho de Filipe III, de Espanha, e da rainha sua mulher,
D. Margarida de Áustria.
Em 14 de Julho de 1619 foi
jurado príncipe de Portugal, e aos 16 anos de idade, em 1621,
sucedeu no trono por morte de seu pai. Logo no começo do seu
reinado chamou para junto de si D. Gaspar de Guzman, que fez
conde-duque de Olivares, que se tornou o seu ministro e valido homem
em que depositava a maior confiança e a quem entregou completamente
a administração dos negócios do Estado. O novo valido era mais
activo e mais inteligente que os anteriores ministros, os duques de
Lerma e de Uzeda, mas pela sua má política, foi mais prejudicial
do que eles ao rei e aos países que governava. Julgando conseguir
os seus fins adoptando medidas rigorosas, tomou tais providências
com relação a Portugal, que provocou a maior resistência. O que
os portugueses aceitaram de bom grado, serenando mais os ânimos
irrequietos, foi a demissão do marquês de Alenquer, que era o
vice-rei de Portugal, substituindo-o por uma junta de três membros,
composta do conde de Basto, D. Nuno Alvares Portugal e o bispo de
Coimbra. Seria decerto um bom ensejo para se entrar numa politica
conciliadora, muito mais, conhecendo-se a irritação que lavrava em
Lisboa e nas províncias, mas o conde-duque não viu ou não quis
ver a gravidade da situarão, e seguiu um caminho cheio de precipícios.
Promulgou, em nome do rei, decretos sobre bens da Coroa, sobre a
fiscalização financeira, que feria os interesses do povo, decretos
que começaram a suscitar grande indignação; arrancou tributos ao
país, a título de subsídios voluntários, publicou fechar outra vez os Portos do reino aos
holandeses, medidas que muito contribuíram para a ruína do país,
que tivera algumas esperanças de lucrar com a actividade e inteligência
do novo ministro e valido. A esta situação pouco tranquilizadora
sobrevieram factos que seriamente inquietavam o conde-duque, e
que o obrigaram a empregar toda a energia.
A trégua com as Províncias
Unidas estava concluída, e a luta recomeçava não muito
desvantajosa na Europa, onde Spínola mantinha o prestigio das armas
espanholas, mas nas colónias, onde o desmoronamento estava sendo
completo, principalmente nas colónias portuguesas menos protegidas
que as de Espanha, pelo egoísmo inepto do governo de Madrid. Em
1623, Ormuz caiu em poder dos persas auxiliados pelos ingleses; em
1624, os holandeses tomaram Baía; no entretanto, Macau e a Mina
foram heroicamente defendidas repeliram os holandeses, e a Baia
foi-lhes reconquistada em 1625, por uma forte esquadra, que o
conde-duque de Olivares mandou rapidamente aprestar, com o auxílio
do patriotismo português, então vivamente excitado. Contudo, o
ministro bem calculava que os holandeses deveriam continuar a
inquietá-lo, porque a França aliara-se com os protestantes da
Alemanha, com a Dinamarca e a Holanda, sendo um dos planos desses
aliados o enfraquecimento da Espanha pelos repetidos assaltos dados
ás suas colónias pelas esquadras holandesas. Para resistir àquela
aliança, entendeu Olivares que devia ligar fortemente os diferentes
reinos que constituíam a monarquia espanhola, quebrando os foros e
as isenções que cada um deles guardava com a maior tenacidade.
Para realizar esse plano começou por enfraquecer os diversos
reinos, exigindo-lhes pesados impostos, especialmente a Portugal,
que no plano tributário ocupava o primeiro lugar. O
conde-duque de Olivares, de tal forma o oprimiu que o povo se
revolucionou, cansado de tantas violências. Não tendo já sobre
que lançar impostos, chegou até a tributar as maçarocas, o que
amotinou as regateiras do Porto, que correram à pedrada Francisco
de Lucena, que fora ali encarregado de distribuir e cobrar o novo
imposto. (V. Maçarocas, imposto das). Os governadores do reino, o
conde de Basto e D. Afonso Furtado de Mendonça eram os primeiros a
protestar contra os inauditos tributos e tão repetidas vexações,
ponderando ao governo de Madrid que o povo, já tão oprimido e
massacrado, poderia reagir energicamente, mas os seus protestos não
foram ouvidos, e o implacável ministro castelhano ainda mais
agravou os impostos, recomendando aos agentes fiscais que
procedessem com o máximo rigor contra os que não pagassem
pontualmente. Era duma sofreguidão insaciável; Olivares empregava
mil formas para arrancar dinheiro a Portugal, já alcançando dos
cristãos novos milhão e meio de cruzados a troco de um indulto que
lhes oferecia, já levantando empréstimos, que eram verdadeiros
tributos, já promovendo subscrições, a que dava o nome de voluntárias,
a pretexto de socorrer as colónias. As ordens do conde-duque
de Olivares tinham hábeis executores em Diogo Soares, secretario do
conselho de Portugal em Madrid, e no seu parente, o celebre Miguel
de Vasconcelos, nomeado escrivão de fazenda e secretario de Estado
de Portugal, quando a duquesa de Mântua, parenta de el-rei, foi
nomeada em 1631 vice-rainha de Portugal.
Este homem tornou-se
justamente odioso aos portugueses pelo modo como desempenhava a sua
missão de secretário de Estado. Os impostos eram cada vez mais
odiosos. Olivares tivera a ideia de obrigar os portadores de títulos
de divida publica a um empréstimo forçado, mandando que os
tesoureiros das alfândegas retivessem um trimestre de juros aos
portadores, a quem os pagavam. Com esta simplicidade entendia também
Miguel de Vasconcelos que se deviam cobrar os tributos. Foi ele quem
lembrou que, em vez de se lançarem tributos novos neste ou naquele
género, se lançasse ao reino de Portugal uma finta de 500:000
cruzados, finta que as câmaras distribuiriam depois entre os
contribuintes como lhes aprouvesse. A paciência popular estava
esgotada; de tantos sacrifícios e vexames resultara o povo
revolucionar-se. Em Évora romperam os tumultos e com Poda a
energia, em que tanto se salientou o celebre Manuelinho de Évora.
Contudo, tomaram um carácter exclusivamente democrático, que foi
muita prejudicial, porque a nobreza em vez de se aliar à insurreição,
viu-se insultada pelo povo, e o mais que pôde fazer, em atenção
ao patriotismo, foi apresentar-se como medianeira deixando a revolução
entregue ás suas próprias forças, mas o movimento propagou-se com
bastante rapidez no Alentejo, Algarve, Porto e em alguns pontos do
Minho. Faltava, porém, um chefe, direcção e unidade neste ímpeto
revolucionário. Olivares aproveitou-o como pretexto para trazer
tropas castelhanas a Portugal, punindo severamente os revoltosos de
Évora, e tornando ainda mais despótico e opressor o jugo que fazia
pesar sobre Portugal. Esperava que o povo português reagisse de
novo, dando-Ihe pretexto para poder aniquilar completamente a
nossa autonomia. Tomara para isso todas as precauções necessárias.
Fora chamando a Espanha pouco a pouco os principais fidalgos
portugueses, invocando diferentes pretextos, mas na realidade para
tirar à revolução, que esperava, os seus naturais chefes; mandava
alistar em Portugal terços que remunerava bem para irem servir em
Flandres, apoderava-se de todos os navios portugueses, e dera ordem
à, esquadra de D. António de Oquendo que viesse para Lisboa, afim
de dar força à proclamação da união definitiva de Portugal com
a Espanha.
Receando que o duque de Bragança se resolvesse a
capitanear uma insurreição, resolveu Olivares enleá-lo de tal
modo que, ou se declarasse formalmente em oposição ao governo
espanhol, e então seria um pretexto para o obrigar a sair do reino,
ou se tornasse cúmplice do domínio espanhol, fazendo-se executor
das suas ordens mais odiadas. D. João aceitou o cargo de presidente
de uma junta de defesa do reino, e nessa qualidade veio até Almada,
onde os fidalgos lhe pediram para tomar a Coroa. D. João recusou,
mas se a sua timidez o impedia de se lançar no caminho da revolução,
o seu natural bom senso fazia com que se escapasse dos laços de
Olivares, e evitasse a posição falsa em que o ministro castelhano
o pretendia colocar, procedendo de modo que todos percebessem que
ele andava ali forçado e tratando dos interesses do nosso país.
Procurando por todas as formas desprestigiar, desmoralizar e
enfraquecer Portugal, Olivares não hesitava em recomendar a Miguel
de Vasconcelos que promovesse tanto quanto possível a desonra e o
descrédito das famílias nobres; fazendo com que se lhes seduzissem
as filhas, indicação que pareceria fantasiada, se não estivesse
publicada a correspondência sobre este assunto, entre Diogo Soares
e Miguel de Vasconcelos. Os planos do conde‑duque de Olivares
não se realizaram, porque a esquadra do almirante Oquendo foi
derrotada pelos holandeses na batalha do Canal, porque a guerra dos
Trinta Anos recrudesceu, achando-se a Espanha a braços com todo o
poder da França, porque a Catalunha, que via os seus foros já
suprimidos violentamente por Olivares, respondeu à opressão com a
revolução, e, expulsando o vice-rei e as tropas castelhanas,
declarou-se em insurreição aberta. Os acontecimentos das colónias,
que estavam cada vez em piores circunstancias, tendo-nos tomado os
holandeses Pernambuco, Paraíba, Maranhão, S. Jorge da Mina e
Malaca, indignavam seriamente os portugueses que já tinham reagido
com toda a energia contra a imprudência com que o conde‑duque
de Olivares quisera mandar em socorro do México uma esquadra,
equipada à custa do tesouro português e destinada ao Brasil.
A notícia
da insurreição da Catalunha veio agitar ainda mais a opinião pública.
Olivares aproveitou esse acontecimento para arrancar mais tropas a
Portugal, e chamar a Madrid quantos fidalgos pôde, sendo o primeiro
que chamou o duque de Bragança. Em Lisboa conspirava um grupo de
fidalgos de acordo com João Pinto Ribeiro, procurador do duque de
Bragança, para lhe darem a Coroa. D. João, vendo que não podia
desobedecer ás ordens do governo de Espanha, que o chamava a
Madrid, senão pondo-se à frente da revolução, deu o seu
consentimento, e o glorioso dia primeiro de Dezembro de 1640 raiou
finalmente, em que Portugal readquiriu a sua independência depois
de tio anos de ignominiosa opressão sob o domínio de três
monarcas castelhanos. Filipe IV de Espanha e III de Portugal,
enquanto o seu ministro e valido conde-duque de Olivares governava
abertamente, cavando com os seus planos e as suas teorias a ruína
de Espanha, empregava o tempo divertindo-se, caçando, escrevendo
comedias, namorando actrizes, com especialidade Maria Calderon, de
quem teve um filho, que foi depois D. João de Áustria, um dos
generais espanhóis de maior nomeada; e fazia-se retratar por Velásquez
e Rubens. Apesar da sua indiferença, causou-lhe uma certa sensação
a perda de Portugal, e desde então começou a desgostar-se do
valido, que não tardou a substituir por D. Luís de Haro. Deram-se
em seguida grandes batalhas, como as das Linhas de Elvas, do
Ameixial, de Castelo Rodrigo, terminando a campanha. da Independência
com a de Montes Claros, em 1665.
Filipe faleceu pouco depois desta
batalha. Tinha casado com D. Isabel de Bourbon, filha de Henrique IV,
de França.
Transcrito por Manuel Amaral
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