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Henrique
(D.).
n.
1057.
f. 1114.
Conde
de Borgonha, o Bom, fundador da monarquia portuguesa, por ter
sido pai de D. Afonso Henriques, 1.º rei de Portugal. N. em
Dijon em 1057, data que se considera mais provável, e fal. em
Astorga em 1114. Era o 4.º filho do duque Henrique de
Borgonha e de sua mulher, Sibila, neto de Roberto I, duque de
Borgonha-Baixa, e bisneto de Roberto, rei de França.
Quando
em 1086 as notícias da guerra contra os muçulmanos chamaram a
alistar-se debaixo das bandeiras de D. Afonso VI, rei de Leão e de
Castela, os príncipes dalém dos Pirinéus, o príncipe Henrique
veio para Espanha na companhia de seu primo Raimundo de Borgonha,
filho do conde Guilherme de Borgonha, irmão de sua mãe. Os dois príncipes
granjearam grande reputação pelo seu valor nas guerras em que
entraram, e em prémio dos serviços prestados, D. Afonso VI casou
sua filha D. Urraca com Raimundo, e D. Teresa ou Tareja, filha
bastarda, com D. Henrique. Em 1093 D. Afonso atravessou o rio
Mondego, tomou Santarém, Lisboa e Sintra, dilatando assim o domínio
cristão até ao rio Tejo. Como o ocidente da península hispânica
formava um domínio já bastante extenso para que os seus chefes
pudessem lembrar-se em se tornarem independentes, pensou em delegar
o seu poder para esses lados num homem de confiança. Fez pois de
Raimundo conde soberano de Galiza, e de Henrique governador do condado
de Portucale, sob a suserania de Raimundo. O território entre o
Minho e o Tejo compreendia então três territórios o condado de
Portucale, que ia do Minho ao Douro; o de Coimbra, do Douro ao
Mondego; e o novamente conquistado aos sarracenos, do Mondego ao
Tejo, de que D. Afonso fizera governador Soeiro Mendes, com a sede
do governo em Santarém. Este território foi retomado pelos moiros
logo em 1095. e parece que este desastre contribuiu para que D.
Afonso VI libertasse o conde D. Henrique da suserania de seu
primo Raimundo, porque em 1097 já governava independentemente o seu
condado, e em 1101 encontrava-se na corte do rei de Leão e de
Castela. Estavam, portanto, sossegadas as fronteiras de Portugal, e
os muçulmanos, concentrando todos os seus esforços no oriente da
península e nas fronteiras de Castela, contentavam-se no ocidente só
com a posse de Lisboa e de Sintra, que por esse lado limitavam o seu
império já tão disseminado. Vendo a Espanha quase tranquila,
procurou o conde D. Henrique outro campo em que pudesse empregar a
sua irrequieta actividade. Seduziu-o, como a tantos outros príncipes,
o movimento das cruzadas. Entre os anos de 1102 e 1104 continuas
expedições demandavam a Terra Santa, e D. Henrique, nos primeiros
meses de 1103 partiu para o Oriente, donde voltou em 1105, sem que a
historia faça menção dos feitos que praticou, o que se explica
por ele ter partido mais como simples voluntário, do que como chefe
dalgum poderoso contingente. Desde essa época envolveu-se nas
intrigas que tinham por fim ampliar o território que dominava. e
conseguir tornar-se independente. Continuando a guerrear os moiros,
conquistou-lhe mais terras, vencendo o régulo Hecha e o poderoso
rei de Marrocos Hali Aben Joseph. Excelente guerreiro, sábio e
prudente administrador, aumentou consideravelmente as terras do seu
condado, merecendo o cognome de Bom, que a historia lhe deu.
D. Afonso VI não tinha filho varão legítimo, por conseguinte
Raimundo, marido de D. Urraca, esperava receber a herança, mas o
monarca mostrava-se tão afeiçoado a seu filho natural D. Sancho
que se receava que lhe deixasse a coroa em testamento. Prevendo este
caso, e dispondo-se a anular o testamento pela força, pediu a aliança
de seu primo, e fez com ele um pacto em 1107, pelo qual o conde D.
Henrique se comprometia a auxiliá-lo nas suas pretensões à,
coroa, recebendo em troca ou o distrito de Galiza ou o de Toledo, e
a terça parte do tesouro. Raimundo, porém. morreu em Outubro desse
mesmo ano, D. Sancho pouco tempo depois, e D. Afonso em 1109,
ficando D. Urraca legitima herdeira. Diz-se que D. Henrique, vendo o
sogro já moribundo, procurou persuadi-lo a que lhe legasse o
ceptro, porque não convinha que passasse para as mãos de D.
Urraca, apesar da legitimidade da herança, ou para as de D. Afonso,
filho do conde Raimundo, criança de três anos. Nada conseguiu, mas
os barões castelhanos obrigaram D. Urraca a um segundo casamento,
com D. Afonso, rei de Aragão e Navarra, casamento que o papa anulou
alegando serem os noivos parentes em grau proibitivo. D. Afonso não
se importou com a deliberação do papa, porém D. Urraca, que
casara contra vontade, tomou o partido contrário ao do marido, que
pretendia despojá-la dos seus estados. Estabeleceu-se a guerra
civil, e D. Henrique tomou a defesa da cunhada. Indo depois a
Astorga, ali adoeceu e morreu. O seu corpo foi trasladado para
Braga, e sepultado numa capela da sé. Em 1512 o arcebispo. D. Diogo
de Sousa o transportou para a capela-mor da mesma igreja, onde se
tem conservado. Por morte de seu marido, ficou D. Teresa governando
o condado de Portucale na menoridade de seu filho D. Afonso
Henriques, que apenas contava três anos de idade.
Transcrito por Manuel Amaral
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