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Maria lI.
n. 4 de
Abril de 1819.
f.
15 de
Novembro de 1853.
Rainha de Portugal; a
primeira rainha constitucional do país.
N. no Rio de Janeiro no paço da Boa Vista em S. Cristóvão,
a 4 de Abril de 1819. Foi baptizada em 3 de Maio seguinte, recebendo
na pia baptismal os nomes: D. Maria da Gloria Joana Carlota
Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela
Gabriela Rafaela Gonzaga. Fal. no paço das Necessidades de Lisboa,
a 15 de Novembro de 1853. Tinha o título de princesa da Beira e do
Grão-Pará; a grã-cruz das seguintes ordens: Nossa Senhora da
Conceição, Santa Isabel, Cristo, Avis, e de S. Tiago da Espada, na
qualidade de rainha reinante; dama das ordens da Cruz Estrelada da
Áustria, de Santa Catarina da Rússia, de Maria Luísa de Espanha.
Era filha de D. Pedro IV, de Portugal, 1.° Imperador do Brasil, e
de sua primeira mulher, a Arquiduquesa de Áustria D. Maria
Leopoldina Josefa Carolina.
Contava apenas 7 anos quando faleceu seu
avô, D. João VI, em Março de 1826, e sua mãe em Dezembro do
mesmo ano. O monarca nomeou regente do reino sua filha, a infanta D.
Isabel Maria, na ausência de D. Pedro, herdeiro do trono, a esse
tempo já imperador do Brasil, o infante D. Miguel residia em Viena
de Áustria, para onde fora mandado, por carta regia de 12 de Maio
de 1824, depois da revolta de 30 de Abril desse ano, que ficou
conhecida pela Abrilada (V. este nome). Os brasileiros não
aceitaram de bom grado que o seu imperador cingisse a coroa
portuguesa, porque desse facto resultaria a unidade da antiga
monarquia, de que se haviam libertado proclamando a independência
do Brasil. Reconhecendo o desagrado dos brasileiros, D. Pedro,
depois de ser proclamado rei de Portugal, resolveu abdicar a coroa
portuguesa em sua filha, a princesa D. Maria da Glória, o que se
efectuou em 3 de Maio, tendo anteriormente, em 29 de Abril,
outorgado aos portugueses uma constituição livre, conhecida pela Carta
Constitucional. A abdicação, porém, era condicional. A princesa
devia casar com seu tio, o infante D. Miguel, em tempo oportuno, e
enquanto se não realizasse esse consórcio, e não dominasse em
Portugal o novo regime, continuaria a regência de D. Isabel Maria
em nome de D. Pedro IV. A 31 de Julho do mesmo ano de 1826 foi
jurada a Carta Constitucional em Portugal, e D. Miguel, em Viena de
Áustria, também a jurou em 4 de Outubro, dizendo-se pronto a
obedecer às vontades de seu irmão D. Pedro, e efectuou, por
procuração, os seus esponsais com a jovem rainha, sua sobrinha,
perante a corte de Viena, a 29 de Outubro, sendo dispensado o
impedimento de consanguinidade por breve do papa Leão XII,
representando a rainha nesse acto solene, em virtude do alvará que
para tal fim fora conferido em 28 de Abril de 1826, o barão de Vila
Seca, enviado extraordinário e ministro plenipotenciário do império
do Brasil junto à corte do imperador de Áustria Francisco I, como
foi participado às cortes pela infanta regente. Em vista do
procedimento do infante D. Miguel no acto de jurar a Carta
Constitucional, quando tempos depois, no meio da agitação dos
partidos que se gladiavam, dos tumultos e das revoltas, D. Isabel
Maria adoeceu gravemente, D. Pedro não hesitou em nomear, em nome
da rainha D. Maria II, o infante D. Miguel seu lugar-tenente e
regente do reino, por decreto de 3 de Setembro de 1827, resolvendo
enviar sua filha para Viena de Áustria a completar a educação na
corte do imperador seu avô. D. Maria II saiu do Rio de Janeiro a 5
de Julho de 1828, sob o título de duquesa do Porto, sendo
reconhecidos os seus direitos à coroa de Portugal por algumas das
potências europeias. O marquês de Barbacena, Felisberto Caldeira
Brant, foi o escolhido por D. Pedro IV para a acompanhar. No
entretanto, D. Miguel, chegara a Lisboa a 9 de Fevereiro de 1828 e
desembarcara no dia 22, recebendo das mãos de D. Isabel Maria a regência
do reino, e ratificando no dia 26 o juramento que prestara à Carta
Constitucional perante as cortes que a infanta havia convocado para
esse fim. Mas não tardou a mudar de resolução, e a 13 de Março
seguinte dissolveu as cortes, convocando depois, em 3 de Maio, o
conselho dos três Estados para decidir a quem pertencia a coroa,
segundo a antiga forma das cortes do país, quando se tratava de
graves pontos de direito português. O conselho depois reuniu-se a
21 de Junho, e dois dias, a 25, proclamaram D. Miguel rei absoluto.
Foi notável esta precipitada resolução do conselho dos três
Estados, em vista do acto de reconhecimento do herdeiro da coroa de
Portugal, prestado pela regência do reino e real câmara dos pares,
instituída pela Carta Constitucional, acerca da sucessão da Casa
de Bragança nas duas coroas de Portugal e Brasil, e particularmente
na do Portugal, já indicada nas conferências que se realizaram em
Londres no mês de Agosto de 1823, e preliminares do tratado de 25
do referido mês e ano, que reconheceu a independência do Brasil,
onde a tal respeito foi apresentado na conferencia de 9 de Agosto o
seguinte Artigo Secreto: «Como por causa da aceitação da
renúncia pessoal do imperador do Brasil, D. Pedro, à Coroa de
Portugal, as Cortes de Portugal devem determinar qual dos filhos do
imperador será chamado à sucessão daquela coroa por morte do
presente rei: entende-se que as ditas Cortes podem chamar à sucessão
o filho mais velho do dito imperador do Brasil, ou a filha mais
velha, na falta de descendência masculina.» (Biker, .Supplemento
á Collecção dos Tratados, tomo XXII, pág. 199).
O marquês
de Barbacena chegando a Gibraltar com a real viajante, a 3 de
Setembro de 1828, teve conhecimento do que se passava em Portugal,
por um emissário que o esperava naquele porto, e teve a perspicácia
de compreender que D. Miguel viera de Viena de Áustria já
resolvido a pôr-se à frente do movimento absolutista, aconselhado
pelo príncipe Matternich, que então dirigia a politica europeia, e
que seria perigoso a jovem rainha ir para Viena de Áustria. Tomando
sobre si toda a responsabilidade, mudou a direcção da viagem, e
foi para Londres, onde chegou a 7 de Outubro seguinte, julgando que
haveria ali mais segurança. A política inglesa, porém, nada
favorecia. os intuitos do nobre fidalgo. O gabinete de lorde
Wellington patrocinava abertamente os adversários da liberdade, de
sorte que o asilo que o marquês procurara, não era dos mais
seguros. Enquanto D. Maria II era recebida na corte de Inglaterra
com todas as honras devidas à sua elevada hierarquia, os ingleses
impediam os seus súbditos fiéis, ali emigrados, de irem reforçar
a guarnição da ilha Terceira. O golpe de estado de D. Miguel não
passara sem protestos. A 16 de Maio de 1828 revoltava-se a guarnição do Porto, a 25
revoltava-se em Lagos um batalhão de infantaria, mas estas revoltas
foram depressa sufocadas. Saldanha, Palmela, e outros; que tinham
vindo para tomar a direcção do movimento do Porto, tornaram a
embarcar a bordo do Belfast, que
os trouxera; a guarnição do Porto, reforçada pelos voluntários
académicos de Coimbra e por outras tropas liberais, emigrava para a
Galiza, e dali para Inglaterra. À frente duma pequena expedição
liberal tentou Saldanha desembarcar na ilha Terceira, mas não lho
consentiu o cruzeiro inglês, cuja vigilância não pôde, contudo,
evitar algum tempo depois que o conde de Vila Flor, mais tarde duque
da Terceira, tentasse, e conseguisse efectuar o desembarque. Chegou
a tempo este general, porque em Agosto de 1829 aparecia na frente
daquela ilha uma formidável esquadra miguelista, que lançou em
terra um corpo de desembarque. Deu-se então a batalha de 11 de
Agosto, na vila da Praia, em que os miguelistas ficaram derrotados.
Quando os emigrados que estavam em Inglaterra, receberam a notícia
desta vitória, sentiram grande entusiasmo, mas depressa perderam as
esperanças que aquele acontecimento lhes fizera conceber, quando
souberam que a jovem rainha voltava para o Brasil. Na verdade, a
situação de D. Maria II na corte inglesa, ao lado do ministério
que estava então no poder, tornava-se bastante embaraçosa e
humilhante. A rainha saiu de Londres acompanhada de sua madrasta, a
imperatriz D. Amélia, partiu em 30 de Agosto de 1829 para o Rio de
Janeiro, onde chegou a 16 de Outubro. Com a saída da rainha
julgou-se completamente perdida a causa constitucional. Os emigrados
dispersos por França, Inglaterra e Brasil, estavam divididos em facções
que se agrediam cruelmente. Em território português só a ilha
Terceira reconhecia os princípios constitucionais, e ali mesmo começavam
a aparecer guerrilhas miguelistas. A França estava já disposta a
reconhecer o governo de D. Miguel, quando em 1830 rebentou em Paris
a revolução de Julho, o que fez animar muito os liberais
portugueses. No ano imediato, os acontecimentos políticos do Brasil
levaram D. Pedro a abdicar em 7 de Abril a coroa imperial, em seu
filho D. Pedro, irmão de D. Maria II, que foi o 2.° e ultimo
imperador naquele império, e a vir para a Europa acompanhado de sua
filha, e de sua segunda mulher, para sustentar os direitos de D.
Maria II à, coroa de Portugal, tomando o título de duque de Bragança,
e de regente do reino em nome da soberana. Quase ao mesmo tempo a
regência da ilha Terceira, nomeada por D. Pedro e composta do marquês
de Palmela, do conde de Vila Flor e de José António Guerreio,
achava-se com bastante força para preparar uma expedição, que em
pouco tempo se apossou das ilhas dos Açores. Enquanto se ampliava
assim o território constitucional, D. Pedro desembarcava em França,
sendo acolhido com a máxima simpatia pelo novo governo e pelo novo
rei Luís Filipe. Além de todos os motivos que a França tinha para
se mostrar simpática a uma causa com as mais íntimas afinidades
com a causa que triunfara em Paris em Julho de 1830, acrescia ainda
outro. O governo de D. Miguel desacatara as imunidades dos súbditos
franceses, não satisfizera de pronto as reclamações do governo
francês, que procedera imediatamente, mandando uma esquadra
comandava pelo almirante Roussin forçar a barra de Lisboa e impor a
D. Miguel as mais humilhantes condições de paz. D. Pedro deixou
sua filha em Paris para acabar a sua educação, entregue aos
cuidados de sua madrasta, deu-lhe os melhores mestres, e partiu para
os Açores à frente duma expedição organizada na ilha de
Belle-Isle, reunindo todos os partidários devotados da sua causa.
Chegando aos Açores a 3 de Março de 1832, formou um novo ministério,
juntou um pequeno exército, cujo comando entregou ao conde de Vila
Flor, meteu o a bordo duma esquadra que entregou ao oficial inglês
Sartorius, e partiu para Portugal, vindo desembarcar em 8 de Julho
do mesmo ano nas praias do Mindelo. Seguiu-se o cerco do Porto e uma
série de combates, na maior parte, gloriosos para os
constitucionais, até que chegou o dia 24 de Julho de 1833, em que o
duque da Terceira entrou vitorioso em Lisboa, depois de ter ganho,
na véspera, a batalha ferida na Cova da Piedade. Porto e Lisboa, as
duas cidades principais do reino, estavam no poder dos liberais.
Tendo notícia destes acontecimentos, D. Pedro veio para Lisboa, e
mandou vir sua filha de Paris.
A jovem rainha chegou a Lisboa a 22
de Setembro acompanhada da imperatriz, sua madrasta, e foi recebida
entusiasticamente. Contava pouco mais de 14 anos de idade. Os
acontecimentos precipitaram-se, os combates sucederam-se nas
proximidades de Lisboa e em outros pontos, até que se assinou a
convenção de Évora Monte, que pôs termo à campanha. Por essa
convenção concedia-se a D. Miguel, que partia para o estrangeiro,
uma pensão de 60.000$000 réis; concessão que irritou por tal
forma o povo, que não só com muito trabalho se conseguiu que D.
Miguel escapasse das mãos da turba indignada e embarcasse em Sines
a bordo do navio inglês Stag mas
o próprio D. Pedro foi insultado no
teatro de S. Carlos, o que profundamente o magoou, agravando-lhe a
doença de que já sofria, e a que sucumbiu a 21 de Setembro desse
ano. No dia 15 de Agosto tinham-se aberto as cortes. No próprio dia
em que faleceu D. Pedro formou-se um novo ministério presidido pelo
duque de Palmela. Este ministério encontrou oposição violenta na
câmara, mas obteve que ela votasse unanimemente duas medidas
capitais: a primeira, a proclamação da maioridade da rainha, que
logo no dia 30 de Setembro começou a governar sem intervenção da
regência; a segunda, a suspensão do pagamento da pensão de D.
Miguel, que apenas chegou a Itália declarou nula a sua desistência
dos direitos à coroa de Portugal, por estar coarcto quando a fez.
A
1 de Dezembro de 1834 o patriarca de Lisboa declarou dissolvido o
casamento da rainha que se efectivara por procuração em Viena de
Áustria a 29 de Outubro de 1826 com seu tio, o infante D. Miguel. Já
então se andava tratando de novo casamento, sendo escolhido o príncipe
Augusto de Leuchtenberg, irmão da Arquiduquesa primeira mulher de
D. Pedro IV. O consórcio realizou-se, por procuração, em Munique
a 5 de Novembro de 1834, e em pessoa, na sé de Lisboa, a 26 de
Janeiro de 1835. Dois meses depois, a 28 de Março, faleceu este príncipe,
e logo se entabularam negociações para novo consorte, que foi o príncipe
D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha, cujo casamento se
realizou, por procuração, em 1 de Janeiro de 1836, e em pessoa na
sé patriarcal a 9 de Abril do mesmo ano. Já anteriormente haviam
começado as discórdias civis que tanto ensanguentaram o reinado de
D. Maria II. O ministério do duque de Palmela, que a oposição
chamava ministério dos devoristas, foi substituído por outro presidido
pelo marquês de Saldanha. A ida duma divisão expedicionária a
Espanha e outras questões de política interna apressaram a queda
do ministério, que foi substituído em Dezembro de 1835, por outro
presidido pelo general José Jorge Loureiro. Este governo, porém,
mostrou-se de pouquíssima força, suprimiu o lugar de comandante em
chefe do exercito, mas como a rainha havia casado outra vez, em
1836, e se estipulara que D. Fernando gozaria das mesmas honras e
considerações que o príncipe Augusto de Leuchtenberg desfrutara,
foi preciso nomeá-lo também comandante em chefe do exército,
sendo o nomeação feita secretamente. Esta questão e outras de política
externa produziram a queda do ministério, sucedendo-lhe outro
presidido pelo duque da Terceira. O partido avançado começou então
a manifestar-se de um modo claro, nos clubes e ajuntamentos. A política
repressiva do ministério não fez senão agravar a situação No
meio da agitação geral passou completamente desapercebida uma
viagem que D. Fernando fez ao Porto e ás províncias. As eleições
gerais deram ao governo uma maioria fictícia, os deputados
oposicionistas do Porto foram acolhidos em Lisboa com uma ovação,
a 9 de Setembro fraternizaram a guarda nacional e a tropa de linha,
e proclamaram a constituição de 1822. A rainha, não tendo força
para subjugar a revolução, anuiu a ela, e chamou Manuel da Silva
Passos ao ministério, mas no fundo da alma era-lhe profundamente
adversa, e por isso esteve logo pronta a fazer o movimento de 3 de
Novembro, conhecido pelo nome de Belenzada.
(V. este nome). D. Maria II foi para o paço de Belém, onde
foram ter os chefes da reacção, o ministério teve da se demitir,
e tratou-se de organizar outro, o qual ficou composto do marques de
Valença, presidente, barão de Leiria, visconde do Banho, José
Xavier Bressane Leite, Francisco de Paula e Oliveira e visconde de
Porto Covo da Bandeira. Mas a guarda nacional pegou em armas,
ocupando o Campo de Ourique e a Pampulha, cortando as comunicações
com Belém. Agostinho José Freire, que recebera ordem da rainha
para ir a Belém, e que se supunha favorável à reacção cartista,
foi morto com um tiro. A contra revolução falhara decididamente.
Ás 11 horas da noite de 4 de Novembro de 1836 desembarcaram as
guarnições dos navios ingleses surtos no Tejo, afim de protegerem
a rainha, que podia ser ameaçada pela guarda nacional. Essa meia
intervenção irritou os ânimos; já a esse tempo havia, porém,
negociações entre comissários de ambos os campos, e a rainha e D.
Fernando voltaram para Lisboa, a guarda nacional e as tropas que se
haviam reunido em Belém, recolheram aos seus quartéis; a rainha
nomeou de novo o ministério de 9 de Setembro, e a revolução
progressista continuava no poder. A rainha nunca se lhe mostrou simpática.
A 10 de Maio de 1837 concedeu a Manuel da Silva Passos a demissão
que este pedira por ter sido vencido nas cortes constituintes, na
discussão dos sub-secretários do Estado, e organizou um ministério
fraquíssimo presidido por António Dias de Oliveira. Em Julho desse
ano rebentou a revolta chamada dos marechais porque se puseram à
frente os duques da Terceira e de Saldanha, revolta que terminou
depois dos combates do Chão da Feira, em que os marechais não
conseguiram derrotar o conde de Bonfim, e de Ruivães, em que o
conde das Antas, general progressista, bateu as tropas cartistas do
barão de Leiria. Mas as agitações continuaram. A 9 e a 13 de Março
de 1838 deram-se em Lisboa os motins do Arsenal, e a 14 de Junho
novo tumulto, que foi subjugado pelo visconde de Sá da Bandeira.
Entretanto as cortes constituintes acabavam de discutir a constituição
de 1838 extremamente democrática, e em 1839 abriram-se as cortes
ordinárias, formando-se nesse mesmo ano um ministério meio
cartista, porque sendo presidido pelo conde de Bonfim, tinha por
principais ministros Rodrigo da Fonseca Magalhães e Costa Cabral.
Os tumultos continuaram: a 11 de Agosto de 1839 em Lisboa, a 26 de
Agosto de 1840 nas províncias, em que se deu a revolta de Miguel
Augusto. A 9 de Junho de 1841 modificou-se o ministério, mas num
sentido ainda mais cartista. Finalmente, em 27 de Janeiro de 1842, o
ministro da justiça Costa Cabral ia ao Porto, e ali proclamava a
restauração da Carta, acto político que enfureceu a tal ponto
Rodrigo da Fonseca Magalhães, que desde então se tornou o mais
rude adversário de Costa Cabral. (V. Magalhães,
Rodrigo da Fonseca). A rainha simpatizava extremamente com esse
movimento, mas não ousava manifestá-lo, e ainda nomeou um ministério
presidido pelo duque de Palmela, e que se podia dizer de resistência
à revolução cartista; esse ministério, porém, conhecido pelo ministério
do Entrudo só durou dois dias, e a 9 de
Fevereiro formava-se um
ministério pronunciadamente cartista, que a 21 se modificou para
nele entrar Costa Cabral. Por esta época nasceram sucessivamente o
príncipe D. Pedro, depois D. Pedro V, o infante D. Luís, depois D.
Luís I, a infanta D. Maria Ana e o infante D. João. Concentrada no
amor de seu marido e de seus filhos, a rainha seria feliz, se não
vivesse numa época tão agitada. Mas o povo indignado com as suas
tendências para os ministérios que sustentavam com mais energia o
princípio da autoridade, acusava-a por se rodear no paço duma
camarilha nefasta, sendo principalmente muito antipático um alemão,
o Dr. Dietz, que D. Fernando chamara para educação de seus filhos.
Costa Cabral restaurara a Carta, mas prometera que brevemente se
convocariam cortes para a modificarem convenientemente. Essa
promessa nunca se cumpriu, e daí resultou em 1844 a revolta
conhecida pelo nome de revolta de Almeida, ou de Torres Novas, por
ter começado nesta vila, iniciada por António César de
Vasconcelos e José Estevão Coelho de Magalhães, e acabado em
Almeida, onde se mantiveram durante dois meses contra as tropas
cartistas, que afinal tomaram a praça, os regimentos insurgidos
comandados pelo conde de Bonfim. O triunfo animou Costa Cabral, a
reacção cartista fez-se mais rude, e as eleições de 1845 ficaram
célebres pelas violências que se praticaram, que deram o seu
resultado inevitável, a revolução. Começou então a revolta do
Minho, conhecida por Maria da Fonte, de que adiante se encontra artigo especial.
Terminada esta revolução, que foi a mais terrível no reinado de
D. Maria II, pela convenção de Gramido, assinada em 30 de Junho de
1847, a rainha não se atreveu a chamar logo ao poder Costa Cabral,
no entretanto, a 29 de Junho de 1849, o antigo ministro cartista, já
então conde de Tomar, novamente tornou a entrar no ministério, o
que muito irritou a opinião publica. O duque de Saldanha foi
demitido do cargo de mordomo-mor que exercia no Paço, por ser um
dos que murmuravam, o que o fizera lançar-se no caminho da revolta.
Sublevou em 1851 os Batalhões de Caçadores n.os 1 e 5,
comandados por Joaquim Bento e Cabreira. Achando-se, porém, o exército
hesitante, já se refugiara em Espanha, quando José Estevão e
outros vultos do partido progressista lhe escreveram, aconselhando-o
a que voltasse para Portugal. Ele assim fez, e encontrou no Porto a
guarnição sublevada em seu favor. Marchou contra a divisão de
Lisboa, comandada por D. Fernando mas apenas chegou a Coimbra, as
tropas, na maior parte, passaram para o marechal Saldanha, que então
se viu à frente de quase toda a força armada do país. Então a
rainha cedeu, demitiu o conde de Tomar, e chamou ao poder um ministério
presidido por Saldanha, ministério que tratou logo de convocar
cortes constituintes, que votaram o Acto Adicional, em que se
introduzia, entre outras reformas, o sistema das eleições
directas. Este movimento a que se chamou Regeneração,
conseguiu acalmar a desordem em que o país se envolvera,
principiando então uma época de fomento e progresso. As forças
produtoras da nação estavam debilitadíssimas. Foi nesse período
de reorganização que Fontes Pereira de Mello, sendo chamado ao
poder, principiou a revelar as altas qualidades de estadista, em que
se tornou tão afamado. No reinado de D. Maria II construiu-se o
teatro de D. Maria no local do antigo palácio da Inquisição foi
aberto ao publico o Jardim da Estrela; inauguraram-se novas escolas
de ensino primário, secundário e superior; houve reformas
importantes na Universidade de Coimbra e na Academia Real das Ciências;
criaram-se as escolas Politécnica e Médico-cirúrgicas de Lisboa e
do Porto; o Conservatório das artes e ofícios; escolas
industriais, escolas e institutos agrícolas, e liceus nos diversos
distritos do reino. Tendo muito a peito o melhoramento e construção
de boas estradas, empregou tudo quanto estava ao seu alcance e as
circunstâncias do tesouro o permitiam; teve a satisfação de dar
princípio ao primeiro caminho-de-ferro de Portugal: o de Lisboa a
Badajoz, passando por Santarém. No seu reinado floresceram homens
eminentes na literatura como Alexandre Herculano, Garrett, Castilho,
Mendes Leal, João de Lemos, etc.
D. Maria II teve 11 filhos: D.
Pedro V; D. Luís I, D. Maria, falecida pouco depois do nascimento,
D. João, D. Maria Ana, D. Antónia, D. Fernando, D. Augusto, D.
Leopoldo e D. Maria, que faleceram pouco depois de nascerem, e D.
Eugénio, que viveu apenas alguns instantes, e de cujo parto sua mãe
faleceu. No meio de todas as agitações politicas,.D. Maria II
dedicara-se sempre à primorosa educação que deu a seus filhos.
Como rainha levantou contra si muitos ódios, mas como senhora
inspirava simpatia e veneração aos seus mais violentos adversários
políticos. No maior ardor de luta, Rodrigues Sampaio, escrevendo o Espectro,
que atacava directamente a rainha, dizia o seguinte no número
de 26 de Fevereiro de 1817: «Não há rainha mais virtuosa do que a
nossa como esposa e como mãe de família. A sua casa pode servir de
exemplo a todas as da Europa. Apraz-nos fazer esta justiça. Assim
pudéssemos achar que louvar, no funcionário como achamos no indivíduo.»
No seu funeral deu-se um incidente interessante, que produziu uma
impressão profunda nos que o observaram. Uma pomba poisou no coche
que transportava o real cadáver, e por muito tempo ali se
conservou. Este acaso inspirou a João de Lemos, o grande poeta
legitimista, uma formosa poesia intitulada o Funeral
e a pomba, em que prestava homenagem à, rainha constitucional,
ele o defensor do príncipe proscrito!
Transcrito por Manuel Amaral
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