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A Revolução de 1383 - 1385 segundo Maria José Pimenta Ferro Tavares.
| Para Maria José Pimenta Ferro Tavares a
cisão política, em 1383 - 1385, deu-se verticalmente, «abarcando elementos
das três condições sociais, e não na horizontalidade.»
É que «as solidariedades davam-se, nesta altura, na vertical, e é assim que devemos compreender toda esta movimentação de nobres.» |
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A NOBREZA NO REINADO DE D. FERNANDO E A SUA ACTUAÇÃO EM 1383-1385 * Ao
estudarmos o período medieval chocamos sempre com a escassez das fontes, uma
vez que a maioria dos livros de chancelaria que chegaram até nós são cópias
posteriores e a documentação concelhia, e até das casas religiosas, não é
abundante. Por outro lado, grande parte dos documentos régios apresenta-se-nos
em ementa, o que nos tira qualquer possibilidade de apreendermos o seu conteúdo
completo, sobretudo o espírito que presidiu à sua feitura. Os reinados de D.
Fernando e de D. João I enfermam disto. Infelizmente,
a documentação que possuímos não nos ajuda a responder a muitas das questões
colocadas, pelo que, algumas vezes, não poderemos sair do mero campo das hipóteses.
As crónicas de Fernão Lopes, as únicas portuguesas que chegaram até nós,
mas não as únicas na época, a crer no cronista, dão-nos uma leitura dos
acontecimentos, que certamente não seria a única existente, para um período tão
complexo como este sobre o qual nos debruçamos. Por outro lado, se Fernão
Lopes segue de perto as fontes e conhece-as, a verdade é que também comete
erros cronológicos e sequenciais, além de por vezes ignorar certa documentação
que hoje conhecemos. Seria curioso sabermos o porquê da não referência às «uniões»
populares do reinado de D. Fernando, se exceptuarmos as que tratam dos protestos
contra o casamento real e do realce dado na Crónica de D. João I aos
vitoriosos levantamentos do povo miúdo, em 1383‑1384. São estes que
merecem a força da sua pena sobrelevando tudo o resto, inclusive deixando para
um plano bastante diluído a acção dos restantes corpos sociais. Além
disso, as crónicas apresentam certos lapsos e não nos permitem completar as
lacunas documentais, como nos casos das tão difíceis políticas monetárias
fernandina e joanina. Assinalemos, como exemplo, alguns desses erros facilmente
detectáveis na Crónica de D. João I. - A morte
do Andeiro aparece-nos no capítulo 9 a 6 de Dezembro e no capítulo 27 a 1 do
mesmo mês; - Guarda
surge-nos como cedência do alcaide ao rei de Castela (capítulo 68), quando foi
o bispo que a entregou. No mesmo capítulo, Almada e Montemor-o-Velho são
mencionados como tendo tomado voz por Castela, o que não sucedeu, apesar de
aquela ter sido forçada a render-se ao invasor; - Álvaro
Gonçalves de Azevedo veio para Lisboa na frota do Porto e fugiu com Gonçalo
Rodrigues de Sousa para os castelhanos, segundo o capítulo 155. Como é possível,
se Gonçalo Rodrigues deserta no Porto, provavelmente em Junho, pelo teor da
narrativa, e a frota chegou em Julho a Lisboa? Por outro lado, ele e seu pai são-nos
dados como tendo optado por Castela em Setembro, aquando da partida do soberano
do reino; - Lopo
Gomes de Lira aparece-nos na crónica de D. João como fidalgo português e na
de D. Fernando como um dos fidalgos galegos e castelhanos que tomaram voz por D.
Fernando; - O
juramento de menagem, feito entre Outubro e Dezembro de 1384, dá a D. João o título
de regedor, governador e defensor do reino, e não o de regedor e defensor, como
nos diz Fernão Lopes. Não teria o cronista conhecido o teor do juramento? Por
outro lado, as cartas enviadas, a crermos na de Évora, nada referem sobre as
cortes de Coimbra, que teriam sido programadas por esta altura, segundo o
cronista; - Fernão
Lopes apressa-se a indicar os traidores da causa do Mestre de origem nobre, mas
nada nos diz dos homens do povo e do clero que também o fizeram. Ante estas
observações e outras que se poderiam acrescentar, cotejando a pouca documentação
existente e a crónica, pensamos que se torna urgente a publicação de uma edição
crítica da mesma e que Fernão Lopes deve ser lido com o espírito crítico de
qualquer outra fonte e não como se fosse uma «bíblia». Sem pretendermos pôr
em causa o seu valor, pois não é disso que se trata, não nos podemos esquecer
que ele foi o único cronista que teve como objecto da sua narrativa movimentos
populares vitoriosos e um rei, iniciador de uma nova dinastia, mas de origem
bastarda e cabecilha desses revoltosos. (...) *
* * A 22 de
Outubro de 1383 morria D. Fernando, deixando a filha única casada com o rei de
Castela. Tal como estava previsto no testamento e nos tratados de casamento, D.
Leonor assumiu a regência do reino. Em Lisboa, recebeu os homens bons do
concelho e acedeu às suas exigências, algumas das quais iam contra os desejos
expressos do falecido rei, uma vez que este dispusera que D. Martinho, bispo de
Lisboa e natural de Castela, fizesse parte do conselho que com a rainha regia o
reino. Este devia ser constituído por prelados naturais do reino, e não por
galegos ou castelhanos. Também propuseram que dois homens bons por cada comarca
estivessem aqui representados. O concelho de Lisboa, nesta audiência,
afirmava-se com um sentido de política nacionalista e segundo os interesses de
uma burguesia, certamente mais urbana que rural e marítima do que interior. Igualmente
a má vontade contra a rainha, por parte dos habitantes de Lisboa, devia ser
ainda grande, pois os seus emissários propunham-lhe Santarém ou Coimbra, ou
ambas, para fixar residência. Em Lisboa
concederia doações a homens seus, entre 18 de Novembro e 9 de Dezembro, pelo
menos, pois as outras cartas que conhecemos da regente são datadas de Alenquer,
a 25 de Dezembro, e de Santarém, a 2 de Janeiro, esta última a favor de D.
Pedro de Castro. No
entanto, a sua saída de Lisboa seria forçada. O arraial por D. Beatriz tinha
erguido sentimentos hostis a esta e favoráveis ao infante D. João, como em
Lisboa e Santarém e, ou simplesmente por Portugal, como em Elvas. Segundo Fernão
Lopes, após a morte de D. Fernando o infante fora contactado por alguns
portugueses para «que visse por sua homrra o que lhe compria fazer sobrello». A oposição
aos castelhanos não seria exclusivamente popular, mas também de parte da
nobreza. E esta última iria agir impulsionada por Álvaro Pais. De uma conjura
de nobres contra o poder e acção do Andeiro, junto de Leonor Teles, a pretexto
da infidelidade desta, sairia o assassinato daquele e o levantamento popular de
Lisboa, que serviria para apoiar e dar força aos conjurados contra uma possível
reacção da rainha. A acção
da nobreza despoletara um movimento popular que a ultrapassaria. O povo miúdo
revoltava-se em Lisboa e noutras partes do reino. Era a luta dos pequenos contra
os grandes, dos oprimidos contra os poderosos, dos pobres contra os ricos. A
estes associava-se o ódio a Leonor Teles, a rejeição de Castela e do papa de
Avinhão. Entretanto,
começava a assomar uma nova força, e esta saída da vontade do povo miúdo: a
do Mestre de Avis. O crescer da sua figura dava-se à margem da sua vontade,
pois, inicialmente, o Mestre mantinha-se fiei à rainha, tal como os restantes
conjurados, principiando por Álvaro Pais, e num segundo momento a sua luta
seria a favor de seu irmão D. João. Era ainda nestes termos que, próximo das
cortes de Coimbra, Fernão Lopes no-lo apresentaria. O primeiro
passo para a projecção da pessoa do Mestre foi feito por Álvaro Pais e pelos
seus homens quando, ao pretenderem levantar a força popular de apoio ao
assassino do Andeiro, gritam: «Acorramos ao Meestre, amigos, acorramos ao
Meestre, ca filho he delRei dom Pedro.» Ele era filho de rei, tal como o
soberano defunto e os infantes exilados em Castela. Por este facto, a sua acção
seria legitimada. A
comprovar que esta ideia não tinha sido lançada em vão, temos o murmurar das
gentes após a morte do bispo de Lisboa. O povo encontrava-se ainda dividido
entre o infante D. João e o Mestre, mas «compria mais lffamte no rregno [...]
e que este tomassem por seu rrei e senhora. O segundo
tempo pertenceria à tentativa de assalto à judiaria grande de Lisboa e ao pregão,
proibindo qualquer dano aos judeus. O nome do Mestre substituiria o da regente
na ordem dada. Este tornava-se, assim, o herói popular, o chefe necessário na
luta contra a rainha e contra Castela. O
movimento popular alastrava-se. Beja, Estremoz, Évora e outros lugares do reino
prolongavam o levantamento do povo miúdo de Lisboa. O Mestre era o chefe eleito
por este e a nobreza que se encontrava com Leonor Teles, em Alenquer, tinha
disso consciência: «[...] que bem viia [D. João Afonso Telo] como Castella
era contra Portugall, e Portugall contra ssi meesmo; e que bem devia emtemder,
que tall samdiçe quall levamtavom dous çapateiros, e dous alfayates, querendo
tomar o Meestre por senhor, que nom era cousa pera hir adeamte». Em meados
de Dezembro, o povo de Lisboa, incluindo os honrados, apoiantes forçados do
Mestre, elegiam este em São Domingos regedor e defensor do reino, título que
manteria, como veremos, até Outubro de 1384. *
* * A nobreza
portuguesa, inicialmente unida contra o Andeiro e contra uma política feita por
castelhanos a favor de Castela e antinacional, logo se afastou do Mestre de
Avis, ante o levantamento popular de consequências imprevisíveis, pois cedo
começara a contestar a legitimidade da rainha regente e de D. Beatriz. Mas a posição
da nobreza – e não cremos poder distinguir os grandes senhores terratenentes
da restante nobreza – não seria sempre a mesma. Ela ir-se-ia alterar em função
das opções políticas de Leonor Teles e da atitude do rei de Castela. Do lado da
rainha estiveram inicialmente os condes, ricos-homens, cavaleiros e escudeiros,
mestres das ordens militares e membros do clero. Acompanharam-na a Alenquer,
entre outros, seu irmão, D. João Afonso Telo, e seu tio, Gonçalo Mendes de
Vasconcelos, D. Fernando Afonso, mestre de Santiago, Martim Gonçalves de Ataíde,
Pêro Lourenço de Távora, João Afonso Pimentel, Vasco Peres de Camões, Aires
Vasques de Alvalade, João Gonçalves, anadel-mor, Lourenço Eanes Fogaça,
chanceler-mor, os membros do desembargo do paço, etc. Seguiram-na Vasco
Porcalho, comendador-mor da Ordem de Avis, Martim Eanes da Barbuda, comendador
da mesma, etc. Pouco depois, quando o Mestre foi eleito regedor e defensor, «muitos que eram criados da Rainha e feitos por alia e seus familiares, sse forom logo da cidade para ella, e assi pera outros logares». Na ida
para Santarém, a seguir ao Natal, entre 28 e 31 de Dezembro, depois da tomada
do castelo de Lisboa, já poucos a acompanhavam, e outros partiram depois para
as suas terras, como sucedeu com o próprio tio da rainha, que, «sabemdo como
eiRei de Castella viinha e nom seemdo çerto como sse os feitos aviam de seguir,
a poucos dias se partio dhi, e se foi para Coimbra.» A nobreza
começava a estar dividida nas suas opiniões e indecisa. Ainda em Dezembro, o
rei de Castela iniciara os preparativos para entrar em Portugal. Este facto iria
lançar a primeira brecha na presumível unidade da nobreza. Aliás, a conversa
entre Nuno Alvares e seu irmão, o prior do Hospital, espelhava já a divisão
das opiniões: «0 Prior tornou a dizer que tall cousa nom era pera faltar em
alia que Portugal) nom estava em ponto de sse deffender delRei de Castella, que
era huü tam poderoso Rei; demais cõ a moor parte de Portugal que com alie
teeria, polias menageés que lhe aviam feitas seguindo nos trautos era comtheudo.
NunAllvarez respomdeo dizendo, que taaes menageés nom eram de guardar, pois que
elRei quebrava os trautos; e que todollos fidallgos podiam seer em ajuda do
Meestre sem nenhuü prasmo.» Idêntica
posição foi a de Beatriz Gonçalves, ao aconselhar prudência a seu filho, Gonçalo
Vasques Coutinho, alcaide de Trancoso e de Lamego, na atitude que tomasse em
relação ao rei de Castela que se encontrava na Guarda: «EIRei de Castella
entra em este rreino, quebrando os trautos seguindo bem veemos; e posto que alguüs
se venham para alie e fiquem por seus, nom praz a muitos porem com sua viimda,
ante pesa a todollos poboos teemdo que faz o que nom deve [...] quebrando as
aveemças que amtre [alie e] eiRei dó Fernando forom firmadas.» A indecisão
da nobreza perante a invasão era bem visível quando da chegada do monarca à
Guarda, em Janeiro de 1384: «Alvoro Gill nora sahiu a elle, mas esteve quedo em
seu Castello, ssem mostrar por qual) parte tiinha. [...]. E martim Affonsso,
rricomem, seu irmaão [de Vasco Martins de Melo] que tiinha Çellorico e
Linhares, foi o primeiro que sse veo para eiRei de Castella; e ficou por seu
alli na Guarda, da qual) cousa desprougue muito a seu irmaão Vaasco Marti iz,
porque ell começara de sse viinr para elle ante que nehuu outro. [...]. Em
outro dia Vaasco Martiiz mandou faltar a Alvoro Gill per Martim Affomsso seu
filho, dizendo que fezera gram bem de sse nora viinr para e1Rei de Castella, nem
sse lhe desse, que lhe fazia çerto que eiRei nora jarra sobrelle, senom que
passava per hi e h iasse seu caminho; e que sse tal cousa avehesse que o eiRei
quisesse fazer, que lhe prometia de sse lançar com alie com sseus filhos, e com
os que tiinha e lhe ajudaria a deffemder o castello.» Era a
guerra justa que Nuno Alvares defenderia no repto do conde de Maiorgas ao
Mestre: «[...] e que eiRei de Castella, mall e como nom deve, entrou em este
rreino ante do tempo que devera, britando os trautos que teudo era de guardar;
por a quall rrazom perdeo todo quanto dereito em ali avia; e que poremde o reino
perteemçe ao Meestre, meu Senhor, que aqui esta, como filho delRei dom Pedro
que he». Inicialmente,
os primeiros partidários nobres do Mestre de Avis provinham da média e pequena nobreza, oriundos quer de famílias de linhagem quer da nobreza urbana.
Aderiram à sua causa cavaleiros, como Rui Pereira, escudeiros fidalgos, como
Alvaro Vasques de Góis, Nuno Álvares Pereira e seu irmão, Ferrão Pereira,
escudeiros de João Afonso Talo, cavaleiros e escudeiros de Lisboa, após a
tomada do castelo, escudeiros de Évora, Estremoz, Beja, etc. Vieram para o seu
lado homens como Alvaro Gonçalves Camelo, comendador de Poiares, e preterido
por D. Fernando no priorado da Ordem do Hospital a favor de D. Frei Pedro
Alvares Pereira, filho primogénito do anterior prior, o arcebispo de Braga, acérrimo
partidário do papa de Roma contra o de Avinhão, o mestre de Santiago, o mestre
de Cristo. Encheram as suas hostes escudeiros e criados do infante D. João, João
Lourenço da Cunha e seu filho e Diogo Lopes Pacheco e seus filhos. A 13 de
Janeiro, a rainha regente renunciava nas mãos do genro e da filha ao regimento
do reino, contra o conselho de alguns que com ela estavam. É provável que date
deste momento a segunda cisão da nobreza que apoiava Leonor Teles.
Abandonaram-na Lourenço Eanes Fogaça, chanceler-mor, confirmado pelo rei de
Castela no cargo, os escudeiros de Gonçalo Vasques de Azevedo e o próprio
filho, Alvaro Gonçalves, que em Buarcos tomara já voz pelo Mestre. É provável
que partisse desta altura a deserção do partido da rainha de D. Fernando
Afonso de Albuquerque, mestre de Santiago, que «estando na villa de Pallmella,
se veo com todas suas gentes a Lixboa para o Meestre, e o rreçebeo por senhor,
e ficou por seu vassallo para o servira. Meses mais tarde, este e o
chanceler-mor seriam enviados como embaixadores a Inglaterra. (...) *
* * Em conclusão,
podemos dizer que nobreza, povo e clero estiveram ao lado do Mestre. A cisão
deu-se na verticalidade, abarcando elementos das três condições sociais, e não
na horizontalidade. A nobreza da dinastia de Avis não foi só uma nobreza de «homens
novos», tal como não é verdade que a nobreza de linhagem tivesse servido
exclusivamente a causa de Castela. As
solidariedades davam-se, nesta altura, na vertical, e é assim que devemos
compreender toda esta movimentação de nobres. É um facto que os primeiros
apoiantes do Mestre pertenceram à média e pequena nobreza. Eles eram
cavaleiros, como Rui Pereira, e escudeiros de uma nobreza de linhagem, embora de
linha bastarda, como Nuno Alvares, ou filhos segundos, como Mem Rodrigues e Rui
Mendes de Vasconcelos, os filhos de Vasco Martins da Cunha, de um Gonçalo Gomes
da Silva, etc. Entre os seus aderentes temos os «juvenes», na acepção de
Georges Duby, como, por exemplo, os Cunha e os Vasconcelos, quer pela idade,
quer pelo estado, quer pela sequência na filiação, pois eram secundogénitos.
Segui-]os-iam, em alguns casos, os primogénitos e os pais, como os Cunha, os
Melo, mas não o primogénito de Gonçalo Mendes de Vasconcelos, que, como
alcaide de Estremoz, seguiria o partido de Castela. Os «seniores», salvo raras
excepções, que, normalmente, não tocavam os primogénitos (conde D. Gonçalo,
Gonçalo Mendes de Vasconcelos), ou como um Vasco Martins da Cunha, o velho, um
Vasco Martins de Melo, um Vasco Martins de Sousa, só mais tarde passariam a
apoiar o Mestre. Fá-lo-iam, após a saída do rei de Castela ou próximo dela,
o Melo, ou em Coimbra, como o Cunha, o velho, e o Sousa. Mas ainda
aqui nesta nobreza de linhagem devemos integrar os dois partidos: o partido
legitimista do infante D. João, encabeçado pelos Cunha, e o partido do Mestre. Além da
nobreza de linhagem não podemos esquecer a pequena nobreza, constituída pelos
vassalos destes nobres e a média e pequena nobreza urbana de escudeiros e
cavaleiros que apoiaria o Mestre, como a de Lisboa, onde a lei da solidariedade
vertical não seria respeitada nos vassalos do conde de Barcelos, a de Évora,
Beja, Estremoz, Elvas, etc. Seguiram a
rainha e Castela os primogénitos da nobreza de linhagem, como um D. João
Afonso Talo, conde de Barcelos, um D. João Afonso, conde de Viana, e talvez o
único filho vivo do conde velho e que viria a ser morto em Panela 336, o conde
de Saia, D. Frei Pedro Alvares Pereira, prior do Hospital, um João Mendes de
Vasconcelos, filho primogénito de Gonçalo Mendes, Martim Afonso de Melo e seu
filho, Aires Gomes da Silva, o velho e seus filhos, etc. Acompanharam-na os seus
vassalos, escudeiros e criados. Igualmente
serviram a causa castelhana a nobreza afecta a Leonor Teles e ao Andeiro e que
esta fizera sua por casamentos e doações. E o caso de João Afonso Pimentel,
seu cunhado e senhor de Bragança, Martim Gonçalves de Ataíde, senhor de
Chaves, Martim Eanes da Barbuda, João Rodrigues Porto Carreiro, etc. O mesmo
sucedeu com os fidalgos galegos e castelhanos que em 1369 vieram para o reino,
como um Lopo Afonso de Lira, fronteiro de Entre Douro e Minho, e seus
familiares, um Fernão Afonso de Samora, senhor de Valença, e João Afonso de
Beça, que, ao serviço do Mestre, o viria a trair. Para
terminar, podemos dizer com Fernão Lopes: «E porque em começo de seus bõos
feitos, o Meestre ouve fidallgos [...] que o bem e leallmente servirom, poemdo
os corpos e vidas por homrra do rreino [...j.»
Optei por não apresentar as notas de rodapé deste artigo. São 337 notas que remetem para as fontes consultadas, para bibliografia especializada e onde se discute mais pormenorizadamente problemas teóricos, que não interessa aqui apresentar.
Fonte:
|
Os Grandes
Debates da Historiografia
O Interregno de 1383-1385
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