DAS MEMÓRIAS DE JOÃO CHAGAS 


No começo do ano de 1919 a situação política portuguesa estava completamente caótica. Com a assinatura do Armistício e o começo das discussões em Paris para a assinatura do Tratado de Paz que terminaria a Primeira Guerra Mundial, colocava-se a questão de quem iria gozar os benefícios da vitória: se os Sidonistas, os representantes da «República Nova», ou os republicanos da «República Velha», e nestes se os democráticos de Afonso Costa ou os Evolucionistas de António José de Almeida, os grupos republicanos que tinham levado Portugal para a guerra.

Sidónio Pais tinha sido assassinado em 14 de Dezembro de 1918, e em 3 de Janeiro de 1919, a Junta Militar do Norte, no Porto, tinha-se assumido como representante do sidonismo. Pouco tempo depois, em 12 de Janeiro, republicanos democráticos tinham-se revoltado em Santarém, lutando contra a eleição de Canto e Castro para a presidência da república, que mantinha a situação criada pelo sidonismo. Em 19 de Janeiro era a vez dos monárquicos intervirem directamente, proclamando a Monarquia em Lisboa e no Porto. A situação era de Guerra Civil, uma guerra que de facto era de todos contra todos, e que acabaria com o restabelecimento da «República velha».

 

A LUTA DE TODOS CONTRA TODOS

 

João Chagas

João Chagas

Paris, 2 de Fevereiro [ de 1919 ].

Visita do tenente-coronel Maia Pinto 1, que está em Paris com licença. Aproveitei o ensejo para lhe pedir informações sobre a situação actual das tropas portuguesas em França, sobre o estado de espírito dos oficiais e sobre certos pontos imprecisos da ofensiva de 9 de Abril. Maia Pinto é sóbrio de palavras, mais reservado que expansivo. Por isso mesmo apreciei o que me dizem como expressão da verdade. As. tropas que ainda estão em França, uns 25, talvez mesmo uns 30 mil homens, não fazem nada, aguardando apenas o seu regresso a Portugal. 0 número de oficiais deve andar pelo que me disseram os irmãos Olavos 2 – uns 1200, talvez mesmo mais. Operou-se no seu espírito uma transformação, como pretendem os Olavos, e tornaram-se eles republicanos? Maia Pinto não parecia concordar inteiramente com esta informação, mas o que afirma é que são todos anti-sidonistas. Quanto aos que voltaram da Alemanha, não se recusa a crer que os maus tratos que ali sofreram tenham esfriado consideravelmente os seus entusiasmos pelos alemães. Não estava a comandar (Maia Pinto é oficial de artilharia) quando se deu a ofensiva de Abril, mas presenciou na retaguarda das forças, uma parte do que se passou. Os soldados bateram-se bem. Muitos núcleos de resistência mantiveram-se até tarde nas suas posições, uns até ás 11 da manhã, outros até mais tarde, apesar do fogo formidável dos alemães e as perdas destes foram grandes. 0 que transformou o recuo das forças em derrota foi o facto de não haver, ou de não se manterem linhas de apoio na retaguarda. Ele assistiu à debandada e confirma o que me disse há tempos José Martins 3. Houve soldados que foram parar a Calais. Depois da ofensiva de Abril, os ingleses não utilizaram mais como combatentes, as forças de infantaria, que foram passadas à situação de reserva. 0 mesmo não sucedeu com a artilharia, que foi incorporada às forças inglesas e utilizada na frente tendo combatido até que se deu o armistício. As forças portuguesas de artilharia que combateram ao lado dos ingleses até o fim da guerra, eram constituídas por seis ou oito baterias de artilharia pesada, da que veio cooperar com o exército francês e por dois grupos de artilharia de campanha. Estes dois grupos foram incorporados à 47.ª divisão inglesa e eram comandados um pelo tenente-coronel Maia Pinto, outro pelo tenente-coronel José Maria Marques. No momento da ofensiva final, o grupo comandado por Maia Pinto estava em Nechin, na Bélgica, e o outro grupo em frente de Tournoi. Maia Pinto confirma que depois da ofensiva de Abril se constituiu um batalhão, com forças retiradas das antigas unidades combatentes e em especial de infantaria 23, 15 e 13, que pediu e obteve ser colocado na linha da frente. Este pedido foi feito pelo bravo Hélder Ribeiro 4, que tomou o comando da pequena força, que Maia Pinto avalia em 800 a 1.000 homens. Este batalhão foi tudo o que do Corpo Expedicionário ficou em condições de se bater, depois da ofensiva de Abril. 0 resto estava desmoralizado. Os soldados, que havia meses viam os oficiais retirarem para Portugal, não queriam mais saber da guerra e a oficialidade de infantaria que ficou, essa, conduziu-se na sua maioria vergonhosamente. A sua linguagem era tal que algumas vezes, nas mess – diz Maia Pinto era preciso obrigarem-nos a calarem-se. Nem mesmo diante dos oficiais ingleses se retinham. De resto; segundo Maia Pinto, sempre reinou a maior indisciplina no corpo de oficiais de Infantaria e cita este caso: quando depois de dois meses de indecisões e sob a pressão dos ingleses, o estado maior português se decidiu a fazer executar a sentença de morte a que tinha sido condenado um chauffeur português, que pretendera passar-se para os alemães, levando consigo documentos, foi difícil encontrar um oficial que se prestasse a comandar o pelotão de execução, pois todos se esquivaram a isso, sob diversos pretextos. 0 chauffeur de resto, alimentou até à última hora a esperança de não ser executado, pois muitos oficiais lhe garantiam que não o seria. Assim, a sua atitude foi de arrogância e zombaria, até ao último momento, pois estava convencido disso. Quando viu que a sua execução era inevitável demorou-a quanto pôde, agarrando-se a um padre, que persistia em não se, retirar do seu lado e tirando constantemente a venda que lhe tinham posto nos olhos. Isto levou cinco minutos. 0 mesmo espírito que levava a gente do Corpo Expedicionário a ser tão indulgente para actos de traição, subsiste. Um sargento que se passou durante a guerra para os alemães e a quem estes confiaram o cuidado de guardar prisioneiros portugueses, tendo sido para estes um verdadeiro algoz, está preso, pois voltou com os outros da Alemanha, tendo sido, ou devendo ser julgado em conselho de guerra, mas sobre o castigo que se lhe há de aplicar subsistem as mesmas hesitações.

Alexandre Braga 5, que acompanhou o tenente coronel Maia Pinto na sua visita, contou que por instigações de Afonso Costa, o actual comandante do Corpo Expedicionário, Alves Roçadas, telegrafara para o Governo de Lisboa, oferecendo o concurso das suas tropas, se o Governo obtivesse meio de as transportar. Acrescentou Alexandre Braga que o Governo de Lisboa fez para esse fim o pedido de transportes ao governo inglês, o qual se teria recusado a fornecer-lhos sob o fundamento de que se os fornecesse nas presentes circunstâncias, pareceria deste modo intervir nas lutas politicas internas dos portugueses. Feito o mesmo pedido ao Governo Francês, este ter-se-ia do mesmo modo recusado. Não creio que nada disto seja exacto. De resto fiz observar a A. Braga que a República não tem nem em Londres, nem em Paris, agentes bastante dedicados para tratarem com êxito um assunto desta natureza

Em Paris, Bettencourt Rodrigues 6, que vê próximo o dia em que terá mais uma vez de abandonar o seu posto, está numa situação de vencido, que não é de natureza a estimular o seu zelo e em Londres não está sequer o Augusto de Vasconcelos 7, que está em Paris desempenhando as funções de secretário da Delegação Portuguesa e quem penso está em seu lugar, é o Pedro Tovar 8, monárquico por definição, filho do conde de Tovar 9, que dificilmente se compreende, dê batalha ao governo inglês para que este forneça à República os meios de sufocar a tentativa de restauração monárquica.

 

Paris, 3 de Fevereiro

0 Primeiro de Janeiro não voltou a vir, mas vieram jornais de Lisboa até 29, dando conta da tentativa de Monsanto e da maneira por que foi sufocada, graças a um esforço popular que resgata Lisboa das torpezas públicas que assinalaram a ditadura de Sidónio Pais. A tentativa reunia todas as condições de êxito, pois os monárquicos entrincheiraram-se numa posição aparentemente inexpugnável e tinham consigo um número de forças muito maior do que aquele que Sidónio Pais conseguiu reunir em 5 de Dezembro.

Dir-se-ia, no entanto, que eles pretenderam renovar a táctica de Sidónio Pais organizando num ponto único da cidade um núcleo de ataque, ao qual viriam juntar-se possivelmente, como sucedeu com Sidónio, as forças da guarnição que se mostrassem de principio hesitantes. Este plano falhou, graças a um verdadeiro levante do espírito republicano da capital e como sempre, os monárquicos equivocaram-se, pois não tiveram em conta que as circunstâncias favoráveis que tinham servido Sidónio Pais e uma das quais principalmente foi o abatimento desse espírito, não se reproduziam agora e que ao contrário o espírito republicano, estava exacerbado pelos perigos que ameaçavam a República. No fundo não contavam com ele, pois, iludidos por múltiplas aparências, não acreditavam que ele existisse sequer. Esta ignorância do estado do espírito público em Portugal, tem sido, de resto, a origem dos erros que os monárquicos têm praticado, com a sua obstinada oposição à Republica, depois que a realeza deitou de existir. 0 seu primeiro erro foi o de supor que o advento da República tinha sido o resultado duma aventura feliz dos republicanos, o que os levou a procurar reproduzi-la em favor de uma restauração. 0 seu erro mais grave foi o de se suporem constituindo a maioria do país pelo facto de constituírem as antigas classes dirigentes, os comandos, a magistratura superior, o alto comércio, a grande agricultura, a grande indústria.

Entretanto a situação política da República, depois da vitória alcançada sobre os monárquicos de Monsanto, começaria já a assinalar-se por essa série de ilogismos e anomalias, que frustraram a revolução de 14 de Maio e que fizeram com que a República caísse de novo na mão dos reaccionários.

A consequência lógica da vitória republicana de Lisboa deveria ser o restabelecimento da situação constitucional anterior a 5 de Dezembro, portanto, a demissão, ou deposição do chefe do Estado eleito por um parlamento saído da ditadura Sidónio Pais e a dissolução deste parlamento.

Nada disto se passou e assim, a República triunfante continua, por assim dizer, a ser governada por Sidónio Pais, morto.

Ao mesmo tempo que os canhões republicanos despejavam a sua metralha sobre o forte de Monsanto, no templo dos Paulistas celebravam-se as exéquias de Sidónio Pais. No dia 27 reunia-se a maioria parlamentar, a mesma que durante um ano deu aparências de constitucionalidade à obra de reacção anti-republicana do herói de 5 de Dezembro, e deliberava como se continuasse a fazer uso de um mandato legítimo; o deputado Xavier Esteves 10, ministro de Sidónio Pais e tão comprometido no escândalo da venda das obrigações do Norte e Leste, propunha que se fizessem eleições suplementares, para substituir os mandados vagos; a Manhã aconselhava os republicanos a reunirem-se em volta «dessa grande figura moral, do Presidente da República». Porquê grande figura moral? A tendência da República, numa palavra, era a de fechar os olhos sobre o passado e continuar a sua história, como se Sidónio Pais não tivesse existido. Entrevistado por um jornal, o Relvas falava em acabar de vez com todos os conflitos, falava em pacificação. - «República para toda a gente e agora, já: pacificação, pacificação, pacificação!, (Manhã, 28 – 1 -19) Entretanto, o Porto e uma parte do Norte continuava na mão dos monárquicos e nas margens do Vouga a guerra civil continuava. Em Paris, Bernardino Machado espera em vão de Lisboa, uma palavra que não vem e esta é uma das mais estranhas anomalias da situação, pois a República se encontra com dois presidentes - um de direito, o de Paris, outro de facto, o de Lisboa. E se o triunfo dos republicanos sobre a reacção que há um ano esmaga a República deve conduzir, como é lógico, ao restabelecimento da situação política constitucional, derrubada pelo golpe de Estado de 5 de Dezembro, não se compreende nem faz sentido algum que o presidente banido, continue banido, e o que usurpou o seu lugar, o continue a ocupar. 0 presidente B. Machado não pode voltar a Portugal senão como Chefe de Estado, embora apenas para entrar e sair do palácio que habitou. Como vai ser isto se lá está outro? Se Canto e Castro fosse um homem com uma inteligência cara e tivesse o sentimento que falta aos portugueses, das resoluções necessárias, já deveria ter anunciado o seu propósito de resignar as suas funções, logo que fossem submetidos os monárquicos do Norte. Não creio, porém, que esteja nessa disposição, nem que suponha que isso é necessário ao esclarecimento do problema político português. No que creio, isso sim, é que: dominado o movimento do Porto, os republicanos acabarão por ver claro e acabarão por colocar as coisas no seu devido lugar. A pouca pressa com que o fazem atribuo-a eu ao medíocre entusiasmo com que encaram a possibilidade de ver restabelecido o predomínio de B. Machado e de Afonso Costa, e a influência dos democráticos, no que têm razão, porque não há gente e não há partido que com menos habilidade tenha sabido utilizar a força real de que dispôs na opinião. De resto – e este não é dos aspectos menos curiosos da política portuguesa – o partido republicano democrático é sempre o primeiro a reconhecer a inoportunidade da sua intervenção no governo. Já depois da revolução de 14 de Maio, eles próprios, os democráticos, proclamavam que a revolução não tinha sido feita em seu proveito e para mostrarem o seu desinteresse, chamavam-me a mim, punham-me à testa do governo, por ser notório que eu não estava filiado no seu partido, ou em qualquer outro. Agora, pelo mesmo motivo, designam o J. Relvas para a presidência do governo, e para tranquilizar a opinião pública, que segundo parece, se alarma, sempre que ouve falar neles, tornam publica esta extraordinária declaração

«Tendo-se propalado o boato de que o P.R.P. pretende assumir o poder, o Directório afirma, da maneira mais categórica, que esse boato, malevolamente espalhado, não tem o menor fundamento, declarando mais que não aceitaria o governo ainda que lhe fosse oferecido. 0 Directório é de opinião que, no melindroso momento que atravessamos, se impõe a formação urgente de um governo de concentração republicana que inspire a maior confiança ao povo republicano. 25-1-19. - 0 Directório

0 que há de singularmente ridículo nesta declaração é o facto de o partido democrático considerar malévolo um ruído público segundo o qual eles estariam dispostos a assumir o encargo do poder. Dir-se-ia que este partido dá assim mostras de um desinteresse sem limites. Na realidade, porém, estas declarações não são senão afirmações de impotência de um grupo político ao qual faltou sempre e continua a faltar a direcção de homens superiores e intrépidos, pois o partido democrático é, e creio que continua a ser o mais numeroso núcleo de forças politicas eleitorais da República visto não ser afinal senão o partido republicano histórico, que aceitou a designação de democrático. É por ele afinal, por este partido, que o povo de Lisboa se bate e morre nos dias difíceis e é desolador verificar que, feito este sacrifício, os primeiros a declararem que não querem recolher os seus frutos, são os homens em favor de quem ele se fez. Se o Afonso Costa fosse o homem superior e corajoso que não é, o partido republicano democrático, isto é, a República governaria Portugal. Assim, governa toda a gente.

 

Paris, 4 de Fevereiro

Um dos cabecilhas monárquicos presos na Serra do Monsanto é o tenente-coronel Álvaro de Mendonça, de quem o órgão sionista, Jornal da Tarde, diz que foi ministro da guerra em vida do saudoso presidente Dr. Sidónio Pais.» Pergunto a mim mesmo se ainda vai durar muito tempo esta plaisanterie do «saudoso presidente Dr. Sidónio Pais» e a impressão que tenho, é que a liquidação das responsabilidades deste homem ainda vai dar lugar a novas desordens em Portugal. Os monárquicos portugueses levaram tão longe o artifício do seu culto por ele, que acabaram por o meter nos Jerónimos. Vai talvez ser o diabo para o tirar de lá, porque é fora de toda a dúvida que não pode lá ficar. Um equívoco desta natureza não pode subsistir, mesmo no meio de uma sociedade tão confusa como a nossa. Chegam sempre jornais de Lisboa, mas os do Porto continuam a faltar. 0 Álvaro de Castro propõe a dissolução dos partidos da Republica – baralhar para tornar a dar, segundo uma fórmula, delineada pelos monárquicos. É um processo infantil de refundir a vida política da nação. Dissolvidos os partidos tornam-se a agregar em virtude das mesmas razões que os levaram a constituir-se. Mudarão talvez os chefes, mas os costumes não mudarão por certo, porque as novas classes dirigentes da República continuam a não ter educação política que os agrupe em nome de princípios e por outro lado, mesmo sobre a questão dos princípios a servir, existe uma grande confusão. Os republicanos portugueses estão divididos sem saberem porquê e arranjando pretextos pueris, ou especiosos para o estar. A distinção entre radicais e conservadores é falsa. Não há conservadores em Portugal, porque o espírito de conservantismo é uma forma de reacção contra as reformas que tendem a modificar a estrutura social e tais reformas não foram ainda suscitadas neste país sem grande indústria e sem um proletariado agrícola capaz de se mexer. Na ordem política, as reformas da República não dividem ninguém e as divergências a que tem dado lugar a redacção de certas leis, como a lei da separação, não justificam que sob estas bases se constituam partidos. Por outro lado, o modo de compreender a defesa das instituições não pode dar lugar a divisões partidárias, e se isso sucedeu, não pode suceder de ora avante. Depois do que acaba de se passar não pode haver divergências sobre a concepção única de que o Estado republicano deve ser unicamente servido por republicanos. Em Portugal não há portanto radicais e conservadores. 0 que há e tem havido é uma tara política herdada da monarquia e que faz com que os republicanos reproduzam sob a República o espectáculo da vida pública do antigo regime, dividido em clãs, sem outro objectivo que não seja o da conquista do poder. A única diferença que existe entre os clãs monárquicos e os clãs da República é que no tempo da monarquia era o rei que lhes dava o poder e agora pretendem eles que sejam as revoluções e os golpes de Estado, o que fez do regime republicano o rendez-vous de todas as anarquias e o conduzir o país à guerra civil. A tara monárquica é tão acentuada que se observa esta manifestação curiosa de perversão inconsciente nas camadas políticas da República: a preocupação constante dos republicanos é a de terem no parlamento uma oposição. Quando a oposição parece faltar-lhes, todos eles parecem desconcertados, como se faltasse uma peça essencial no mecanismo do regime. Contudo esta palavra oposição, na acepção em que é empregada em Portugal não tem a menor significação na vida política de um Estado livre e inteligente. Oposição, na gíria politica do nosso país, quer dizer oposição sistemática e não há parlamentos em que a dignidade dos seus membros lhes permita fazer semelhante política. Parlamento quer dizer soberania, soberania quer dizer independência e independência parlamentar nem aceita o papel de colaboradora sistemática dos governos, nem o papel de tropeço sistemático da sua acção. No parlamento francês, como no parlamento britânico, que são dois tipos de parlamentos livres, não existe o que em Portugal se chama uma oposição, o que não impede que os governos sejam constantemente renovados, pois a sua estabilidade não está dependente de forças arregimentadas para o defender, ou atacar, mas das flutuações da livre opinião parlamentar. Emancipem-se os republicanos portugueses das servidões pessoais, conduzam-se segundo as inspirações do seu bom senso e do seu patriotismo e a oposição nasce por si - quando for necessária, pois um parlamento não é uma arena de gladiadores que todos os dias são obrigados a brigar. A palavra oposição foi criada pelos costumes políticos da monarquia, para dar uma aparência de sinceridade à ficção parlamentar. Deve ser expungida do nosso dicionário político e, o que seria melhor, dos nossos costumes políticos. Mas estes são de tal maneira influenciados ainda pelos costumes políticos da monarquia, que igualmente se pode observar este facto entre as manifestações da vida pública da República: a reclamação que consiste em se fazer introduzir na constituição o princípio da dissolução e que é perfeitamente justificada, não tem sido reivindicado porque seja necessário – para tornar mais clara a atmosfera política do país, mas, mais interessantemente para ter sempre à mão um instrumento legal que permita desalojar um partido em proveito de outro. 0 princípio da dissolução é essencial com a condição de não se abusar dele como sucedeu com a monarquia, no tempo da qual a oposição reclamava sempre a dissolução do parlamento quando queria o poder. Em Portugal, observa-se que a mesma intenção preside a essa reclamação. No tempo da monarquia, a dissolução pedia-se no meio de gritos e ameaças ao rei. Já vimos o mesmo espectáculo sob a República e estamos ameaçados de o tornar a ver, se o bom senso público não puser definitivamente um termo a estes extravios da nossa ainda tão defeituosa educação politica.

 

Paris, 5 de Fevereiro

As anomalias a que me referi atrás, da situação que sucedeu à vitoria dos republicanos em Monsanto, e certas manifestações de frouxidão por parte do novo governo, estão provocando em Lisboa um estado de espírito, a que 0 Mundo, reaparecido, chama de enervamento. As operações no Norte não parecem ser prosseguidas com aquela decisão e energia que seriam de esperar. Os boletins registam todos os dias as vantagens obtidas pelas tropas fiéis, sobre os insurrectos da Monarquia, mas não é menos certo que os monárquicos estão há quinze dias senhores do Porto e de um grande número de localidades do Norte, onde instalaram autoridades suas. Em Lisboa. o governo confia comandos de forças aos sidonistas mais facciosos, como Tamagnini Barbosa 11 e esse famoso tenente Teófilo Duarte12, lugar-tenente de Sidónio Pais, no golpe de Estado de Dezembro. Tamagnini Barbosa levou para o norte, em sua companhia, diz O Diário de Notícias «os militares que fizeram parte do seu gabinete, indo também outros oficiais seus amigos e correligionários. Entre estes foram um irmão e um filho de Sidónio Pais. Quanto a Teófilo Duarte tinha sido nomeado pelo governo, alto-comissário do distrito de Castelo Branco, onde já apareciam editais afixados com o seu nome. 0 governador civil de Castelo Branco conferenciara com o governo, diz O Diário de Notícias, «sobre a atitude do tenente Teófilo Duarte, pois este havia tomado certas medidas militares, desconhecendo-se os fins. 0 ministro da guerra, porém, segundo o mesmo jornal, estava tranquilo, pois informou-se do que se passava «declarando que o referido oficial estava ao lado do governo para combater os insurrectos.» Estes factos estavam inquietando. Outros, como a licença concedida aos cabecilhas de Monsanto, para receberem visitas, irritavam. O Mundo dizia: «É demasiado – Os prisioneiros realistas encontram-se já, não só bem instalados, o que é legítimo, mas em comunicação com aqueles que a demasiada confiança consente à solta. É por certo demasiado o que se está passando ante os olhos mais surpresos do que alarmados, do povo republicano, Com efeito, em Lisboa, os monárquicos, com excepção dos que foram apanhados em Monsanto gozavam de ampla liberdade, faziam os seus conciliábulos, entregavam-se como sempre à campanha dos boatos. Foram eles que espalharam a notícia, de que se fez eco a imprensa estrangeira, de que navios de guerra ingleses se opunham a que o Porto fosse bombardeado. Em Lisboa esteve um único navio de guerra inglês, o Liverpool, que entrou e saiu, e no Norte apenas constava ter entrado o cruzador Diadème, mas o governo de Lisboa fazia desmentir formalmente que qualquer deles tivesse intervido - escrevia 0 Mundo – «a favor de cidades, ou de indivíduos portugueses.» Acrescentava mesmo: «Nem a correcção das potências amigas, e dos seus representantes em Lisboa, nem a legítima susceptibilidade do ilustre ministro dos Estrangeiros, autorizaria tal intervenção.» 0 equívoco – mais um equívoco! – em que o governo Relvas caiu solidarizando a República com o sidonismo, ou aceitando a solidariedade dos sidonistas, está produzindo os seus frutos e sabe Deus quantos produzirá ainda! A opinião republicana, mais esclarecida do que a dos homens que a dirigem, não aceita visivelmente essa solidariedade, procura ainda surdamente, mas de um modo manifesto já, combater o equívoco, purificar a atmosfera política, restaurar definitivamente a República. Deste antagonismo vão sair – ai de nós! – novas lutas. A manifestação mais característica deste equívoco foi a sessão do Senado, no dia 30 de Janeiro. Como se não houvesse em Portugal uma guerra civil, como se os monárquicos não tivessem restaurado a monarquia no Norte e não houvessem hasteado a bandeira azul e branca nos muros do Porto, como se ali mesmo em Lisboa, poucos dias antes, não se tivesse travado uma luta sangrenta para defender a República, isto é, como se nada disto se tivesse passado, como se tudo isto fosse um sonho e tudo continuasse como dantes, sob Sidónio Pais ou sob Tamagnini Barbosa, o Senado reuniu com a sua maioria sidonista e a sua minoria monárquica e discursou, deliberou como nos dias mais correntes da ditadura: 0 senador monárquico Domingos Pinto Coelho 13 prestou homenagem à memória do presidente da República Brasileira Rodrigues Alves 14, o presidente Zeferino Falcão manifestou o seu pesar por só então, poder o Senado associar-se ás manifestações de pesar da Câmara, pela morte do presidente Roosevelt 15. A estes votos associaram-se outros senadores monárquicos – o visconde de Carriche 16, o Castro Lopes ... Introduziu-se na sala um novo senador, deliberou-se agregar um outro à comissão de infracções. Estavam presentes 30 senadores e não diríamos que Portugal se encontrava em guerra civil, se Machado Santos 17, que continua à solta, sem que a República ponha definitivamente um termo às suas loucuras, não tem apresentado um projecto de lei que o faria baixar imediatamente a um manicómio, se tantos outros documentos do mesmo género não o classificassem de há muito entre os mais desenfreados vesânicos que a Revolução de 5 de Outubro desencadeou na sociedade portuguesa. 0 projecto de lei é concebido nestes termos

 

DEFESA DA REPÚBLICA

 UM PROJECTO DE LEI

 «Damos em seguida, «in extenso», o projecto de lei apresentado na sessão de ontem pelo Sr. senador Machado Santos e que foi mandado enviar para a comissão de legislação civil apreciar: Considerando que a defesa da República exige que se tomem medidas enérgicas contra aqueles que não hesitaram em lançar o seu país na guerra civil para restaurar um regime político alicerçado na traição, no perjúrio e na violência contra a vida e bens dos seus concidadãos.

Tenho a honra de propor o seguinte projecto de lei:

Artigo 1.º Consideram-se findos os mandatos dos senadores e deputados que pertençam a partidos políticos adversos à forma republicana de governo, quando esses partidos saiam da legalidade para a luta à mão armada contra a República.

Art. 2.º Os órgãos na imprensa dos partidos políticos adversos à forma republicana de governo, quando esses partidos saiam da legalidade para a luta à mão armada contra a República, não mais se poderão publicar, sendo defeso aos seus proprietários, directores e redactores principais figurarem de novo como mentores ou orientadores da opinião por meio da imprensa periódica.

Art. 3.º Os oficiais generais, subalternos e inferiores da Armada e do Exército, que se tenham manifestado ou venham a manifestar publicamente adversos à forma republicana de governo, serão imediatamente separados do serviço, independentemente de quaisquer outras penalidades que lhes possam caber pela pratica de actos contrários ao dever militar.

Art. 4.º Os oficiais generais, subalternos e inferiores da Armada e do Exército que se tenham mantido ou venham a manter neutrais nas lutas contra os adversários da forma republicana de governo, que juraram defender, serão imediatamente considerados separados do serviço, não lhes devendo obediência os seus inferiores hierárquicos.

Art. 5.º Os oficiais generais, subalternos e inferiores que tenham pegado em armas contra a República ou que venham a atentar contra a forma republicana de governo, serão imediatamente considerados demitidos, independentemente de quaisquer outras penalidades que lhes possam caber pelas leis e regulamentos em vigor.

Art. 6.º Os sacerdotes das várias confissões religiosas que tenham feito ou venham a fazer preces pelo triunfo dos adversários da forma republicana de governo, quando estes saiam da legalidade para a luta à mão armada, ou que tenham praticado ou venham a praticar actos que sejam de incitamento à rebelião contra a República, ou prolongamento da guerra civil, não mais poderão residir nem exercer o sacerdócio na área onde tinham o seu domínio espiritual, independentemente de quaisquer outras penalidades que lhes caibam pelas leis em vigor.

Art. 7.º As bandeiras e estandartes azuis e brancos, símbolos do regime político abolido pelo movimento nacional de 5 de Outubro de 1910, que não possuam nenhuma inscrição de honra comemorativa de actos de valor militar praticados pelas unidades a que pertenciam, serão imediatamente entregues no Arsenal do Exercito e destruídos.

Art. 8.º Os indivíduos que tenham agravado o crime dá substituição da bandeira com ultrajes repugnantes ao símbolo augusto da Pátria e da Republica, à sombra do qual tantos milhares de heróis combateram e morreram em defesa do património nacional, ou aqueles que venham de futuro a rojá-lo pela lama, pisá-lo, despedaçá-lo, serão considerados réus do crime de alta traição e como tal punidos com o n.º 1 da escala penal.

Art. 9.º Esta lei entra imediatamente em vigor e revoga a legislação em contrario.»

 

Os jornais não dizem como o Senado recebeu a leitura deste documento. 0 que dizem é que um dos homens que José Relvas primeiro recebeu ao tomar posse do governo foi Machado Santos, o que dá ideia do estado de permanente desorientação em que se debate a sociedade portuguesa. Este homem, cujo papel na política portuguesa nunca foi definido, já há muito deveria ter sido despojado dos apanágios que a República lhe deu e reduzido à impotência.

 

Paris, 7 de Fevereiro

Os jornais de Paris continuam publicando as notícias mais absurdas e contraditórias sobre a situação em Portugal. Ontem La Liberté dizia o movimento monárquico a alastrar pelo Sul e já no Algarve, em Lagos. Hoje alguns jornais diziam-no em Campolide! Os representantes de Portugal em Paris – mudos!

 

Paris, 8 de Fevereiro

0 Primeiro de Janeiro tornou a vir e por ele continuo vendo daqui o que se vai passando no Porto. Os números chegados alcançam a 2 de Fevereiro. De um modo geral tem-se a impressão de que a população do Porto continuava a abster-se. As manifestações públicas não se reproduziam com frequência, nem parece depreender-se da leitura do Primeiro de Janeiro que a população se associasse a elas. Na tarde de 24 houve duas manifestações – uma promovida pelos alunos da Escola Infante D. Henrique, e outra pela junta da freguesia de S. Nicolau «à qual concorreu avultado número de pessoas, diz o Janeiro. Para 25 estava projectada uma manifestação dos moradores da rua Barros Lima, mas não vi confirmado que se tivesse realizado. Das corporações da cidade, a única que se mostrava activamente monárquica era a Comissão Administrativa do Município, constituída, de resto, por monárquicos e que tomou posse em sessão solene, pronunciando-se discursos e entregando-se todos a grandes manifestações de lealismo monárquico. 0 vereador, José Augusto Dias, terminou deste modo o seu discurso: «Bendita bandeira azul e branca! Eu te saúdo enternecidamente. Saudosa e linda bandeira azul e branca! Eis-te de novo restituída à formosa Pátria, minha amada!». Na cidade, havia, segundo o Primeiro de Janeiro, ansiedade por notícias de Lisboa, mas as notícias que a junta propalava a este respeito eram optimistas. A 2 de Fevereiro ainda não se tinha conhecimento da derrota dos monárquicos em Monsanto e o jornal monárquico Pátria informava, segundo notícias levadas por um portador ido de Lisboa; que as forças monárquicas tinham simplesmente retirado para Mafra, onde haviam proclamado a monarquia. Segundo o mesmo jornal, rebentara no Alentejo um movimento de carácter bolchevista, a que haviam aderido as populações rurais e em Lisboa teria sido necessária a intervenção dos ministros da Inglaterra e dos Estados Unidos, para reprimir actos de. bolchevismo, praticados por grupos armados. «Os grupos civis que se haviam formado em Lisboa, e que saíram armados para as ruas, praticando actos de bolchevismo, foram, pela intervenção enérgica dos ministros da América do Norte e de Inglaterra, desarmados e perseguidos pela polícia, em automóveis e corridos a tiro.» Os monárquicos portugueses, explorando o sentimento de receio e aversão que o bolchevismo está inspirando entre as nações aliadas, não têm cessado de atribuir o carácter bolchevista às lutas empreendidas contra eles pelos republicanos; mas não só os monárquicos declarados, como os agentes sidonistas no estrangeiro o têm feito, que digo eu? - o próprio governo de Tamagnini Barbosa o fez, quando publicou esta nota nos jornais de Lisboa, de 14 de Janeiro

«Durante a noite de sexta feira e a madrugada de ontem produziram-se em Lisboa acontecimentos graves, seguidos de assaltos que eram o prenúncio de um movimento capitaneado por democráticos e secundado por agentes bolchevistas, e que vinha sendo preparado nestes últimos dias, em que, pela propaganda, se formou uma atmosfera de terror, chegando várias personalidades em evidência a receber ameaças de morte e destruição de seus bens e haveres.»

Por sua vez, Betencourt Rodrigues, ministro de Portugal em Paris, declarava nos jornais. de Paris que as perturbações da ordem em Lisboa, eram devidas a manejos bolchevistas. Defendendo o governo de Tamagnini Barbosa da acusação de praticar violências, dizia ao Temps: «Le gouvernement actuel n'a pas usé de telles violences (aquelas que ele acusava a República de ter praticado, a ponto de se ter constituído em Inglaterra uma comissão para protestar contra elas). Il n'a fait que se défendre contre deux tentatives révolutionnaires et un complot bolcheviste.» Ao Matin (20-12-18) dizia: «Le gouvernement n'a fait qu'user du droit de légitime défense, après deux tentatives révolutionnaires, d'ailleurs vite réprimées et un mouvement bolcheviste, qui, lui non plus, n'a pas vécu longtemps. Ao Petit Parisien dizia: «Il (o governo) avait eu plusieurs tentatives révolutionnaires à surmonter. Il y a peu de temps, il avait su étouffer dans I'oeuf un mouvement bolchevick fomenté par des Russes, qui venus à Lisbonne sous le couvert du commerce des pierres précieuses, avaient tenté par l'argent de Ia propagande, de semer le désordre.» Quanto à notícia espalhada pelos monárquicos do Porto, de uma intervenção estrangeira em pretendidas desordens de Lisboa, é isso um dos mais odiosos sestros dos reaccionários portugueses, depois que a causa da monarquia se viu perdida em Portugal: Durante três anos, de 1911 a 1914, os seus apelos aos governos estrangeiros para que interviessem em Portugal foram constantes. Algumas das suas amnistias foram obtidas graças a pressões feitas na imprensa estrangeira. Depois de Sidónio Pais, a invocação do apoio estrangeiro foi o recurso sistemático dos monárquicos. Nesta ordem de ideias não houve indignidade a que eles não baixassem. Agora, no Porto, chegou-se a fazer um apelo público, pela imprensa, ao governo inglês, para que impedisse o bombardeamento da cidade. Referindo-se à presença, em Leixões, do cruzador Diadème o Primeiro de Janeiro escrevia, a 31, que este facto viera «tranquilizar em absoluto o espírito público.» E acrescentava: «Efectivamente há todo o direito de presumir que um atentado a esta laboriosa e pacífica cidade do Porto, se não poderia realizar, estando em águas portuguesas um navio de guerra da nossa poderosa e velha aliada, que aqui tem uma numerosíssima e selecta colónia, digna de todo o nosso respeito e apreço.» Se até 2 de Fevereiro, as notícias da tentativa de Monsanto, davam os monárquicos insubjugados, as notícias relativas à situação política, não eram mais exactas. Segundo umas, tinha-se constituído um governo democrático, o que, segundo o Primeiro de Janeiro, «causara péssima impressão no Porto,» governo constituído pelos elementos mais avançados da política portuguesa, como Afonso Costa, nas finanças e Correia Barreto 18, na guerra, sendo presidente Brito Camacho 19. Segundo outros, tinha-se organizado um ministério sob a presidência de José Relvas, mas durara pouco, sendo logo substituído por um governo igualmente presidido por Camacho e do qual faziam parte António José de Almeida, Francisco Fernandes, Afonso Costa, Egas Moniz 20, Correia Barreto, Vasconcelos e Sá 21, Machado Santos e Costa Júnior 22, socialista. A Junta Governativa era optimista e em notas oficiosas aos jornais e conversações com jornalistas, não cessava de armar a sua confiança no êxito final. Duas colunas operavam contra as forças republicanas, uma a do Norte, comandada pelo capitão Sá Guimarães, outra, a do Sul, comandada pelo coronel Corte Real Machado e todos os dias a Junta Governativa dava conta dos resultados, sempre favoráveis, muitas vezes brilhantes, das suas operações. A 24 anunciava a derrota das forças republicanas na Guarda e a entrada da coluna Sá Guimarães em Vila Real. Em 27, informava que as forças republicanas tinham sido desalojadas de Albergaria, pela coluna Corte Real Machado retirando em completa desordem» e que o governo de Lisboa «estava em completa desorganização, tendo-se manifestado a favor da restauração monárquica algumas guarnições que a principio se mantinham neutras.» Os jornalistas eram todos os dias recebidos pelo capitão Sollari Allegro 23, o feroz comissário de polícia de Sidónio Pais, e ministro do Reino da Junta Governativa, o qual os informava do que se ia passando. Em 27, ainda ele lhes dizia que «o governo tinha razões para supor que a situação das forças em Monsanto continuava sendo óptima» e acrescentava: «A nossa situação é muitíssimo boa, pois temos a monarquia proclamada em todo o Norte, com a exclusão de Chaves, o que não tem a mínima importância.» A partir, porém., de 27, o optimismo da Junta parece ter sofrido uma depressão, porquanto embora não cesse de manifestar confiança, procura pôr em guarda a população contra os «boatos terroristas,» recomenda-lhe serenidade, finalmente prepara-lhe o espírito para uma luta que poderia ser prolongada e nem sempre feliz. Falando aos jornalistas na madrugada de 29, Sollari Allegro dizia-lhes ser preciso «que todos se habituassem à ideia de uma luta talvez ainda prolongada, luta que poderá ter vitórias e revezes.» «Do que no entanto todos podem ter a certeza – acrescentava – é de que a vitória é nossa, infalivelmente.» A 30, a nota oficiosa dizia: «A luta poderá e deverá ter duração superior à que muitos supunham, mas, a vitória é certa para nós e para a nossa causa, que todo o país aclama, com excepção dos elementos republicanos-bolchevistas, que tentam a sua destruição.» A 30, as notícias oficiais da guerra civil eram imprecisas, «para não prejudicar as operações», dizia a Junta, que principiava a designar por letras do alfabeto as localidades em que elas se iam desenrolando. Nesse dia Sollari Allegro dizia aos jornalistas:

«Da coluna do Sul há as melhores notícias, continuando a não dizer onde ela se encontra, por entender que o não devo fazer, para não prejudicar as operações:, eu quero, contudo, informar que ela teve hoje um combate, ficando absolutamente vitoriosa.

Assim, na localidade X as forças de infantaria dessa coluna foram atacadas pela retaguarda num dado momento pelas forças republicanas; mas, tendo esse ataque sido pressentido, devido às disposições devidamente acertadas do comandante da coluna, essas forças inimigas, que constituíam uma parte da coluna republicana, ficaram completamente aniquiladas e prisioneiras.»

Apenas de Vila Real, o capitão Sá Guimarães, comandante da coluna do Norte, telegrafava ter feito um raid em direcção a Chaves com infantaria e artilharia tendo feito fogo sobre a cidade e informando que duas granadas haviam caído sobre o Hotel Salus em Vidago e outra «sobre a casa de um democrático.» Entretanto a situação no Porto, segundo as seguranças do Primeiro de Janeiro, normalizava-se. A pasta da Fazenda, que tinha estado primeiramente nas mãos de Paiva Couceiro 24, passara para as do Visconde do Banho 25, que tomara posse, recebera os cumprimentos do pessoal da Alfândega. 0 respectivo ministério instalara-se na Repartição de Fazenda Central do Distrito. No dia 1 de Fevereiro, que fora declarado de luto nacional, celebraram-se exéquias na Real Capela da Lapa, por alma de D. Carlos e seu filho. Por esse motivo fecharam os estabelecimentos, as bandeiras estiveram a meia haste, «vendo-se muitas pessoas pelas ruas em trajo de luto», informa o Primeiro de Janeiro. As exéquias celebraram-se com grande pompa, vendo-se na capela-mor, Paiva Couceiro e seus ajudantes, o governador civil Conde de Mangualde 26, os ministros visconde do Banho e Conde de Azevedo 27, com os seus secretários e em lugares reservados «os conselheiros Venceslau de Lima 28, Pedro de Araújo 29, Ferreira da Silva 30, Adolfo Pimentel 31 e Ferreira de Lima 32. Assistia, diz o Janeiro, tudo quanto o Porto conta de mais escolhido entre todas as classes sociais.» Num catafalco, ostentavam-se o manto real, a coroa e o ceptro. Oficiou o vigário capitular da diocese. Pronunciou a oração fúnebre o capelão de infantaria 18 Cândido Abílio Gomes, que terminou assim, no meio da emoção geral:

- «Não há muito ainda que um nobre e leal português exclamara ao expirar: «Salvem a Pátria!» Se el-rei D. Carlos e o Príncipe Real pudessem ressuscitar não seria, por certo, para reclamar vingança, mas para repetir também as palavras de Sidónio Pais: «Salvem a Pátria.» Salvem a Pátria - pedia ele também.»

De resto Sidónio Pais continuava a ser reivindicado pelos monárquicos como um herói seu. A 23 tinham-se celebrado exéquias em Gondomar – «significativa e grandiosa manifestação de saudade e respeito, dizia o correspondente da Primeiro de Janeiro, prestada à memória do inolvidável e querido Presidente da Republica Dr. Sidónio Pais.» Em Alijó igualmente se tinham celebrado exéquias «sufragando a alma do Grande Português que foi o saudoso Presidente da Republica Dr. Sidónio Pais» diz outro correspondente. Estas últimas constaram de missa cantada, a que assistiram nove padres, especifica o Janeiro, ofício e sermão «pregado pelo orador sagrado Luís de Azevedo Castelo Branco» que teve reptos de oratória verdadeiramente empolgantes, referindo-se ás palavras de Wilson33, quando disse que Portugal era pequeno para um homem tão grande como Sidónio Pais. Este conceito era atribuído ao ministro da Holanda em Lisboa. Agora, já anda, na boca de Wilson. Assim, por uma série de sucessivas adulterações, se faz a lenda. 0 traço característico do culto dos monárquicos por Sidónio Pais é, porem, o que se traduz por este facto. Em Paredes a antiga Avenida da República passou a denominar-se Avenida Sidónio Pais, o que é lógico e portanto perfeito.

O clero dava uma solidariedade completa ao novo regime. A 21, o arcebispo de Braga, telegrafara a P. Couceiro «saudando-o jubilosamente e a todos quantos trabalharam pela restauração da causa monárquica.» A Junta apelava para o concurso dos padres: numa circular aos prelados, o ministro da Justiça pedia-lhes recomendassem aos párocos que «ajudassem a Junta nos serviços de vigilância nas arcas das respectivas freguesias, quanto às estradas e linhas-férreas e telegráficas.» A ordem no Porto era perfeita – et pour cause. Jornalistas estrangeiros, nomeadamente ingleses e espanhóis, vindos a inquirir dos acontecimentos, verificavam uma «viva admiração pela maneira ordeira conto o movimento monárquico se tem operado, comentava o Janeiro, que continuava a apoiar a situação com ardente, embora prudente simpatia. 0 Diário da Junta continuava a sair regularmente, já com o formato do antigo Diário do Governo e tendo «melhorado imenso o papel, esclarecia o Janeiro e continuava inserindo decretos, portarias, despachos, alvarás. Em 23, a Junta restabelecia os lugares de capelães no exército e da armada e determinava a forma de serem providos, restabelecia o juramento com carácter religioso: mantinha provisoriamente os celeiros municipais: autorizava a «o governo» a adquirir e a distribuir por sua conta os géneros necessários ao consumo da população. A 29, prorrogava o prazo para o vencimento de todas as letras vencidas desde o dia 10 e para as que se vencessem «até o restabelecimento da normalidade, no continente do Reino»; regulava o trânsito dos géneros alimentícios eximindo-os de licença, ou outra qualquer formalidade o criava a uma junta reguladora de preços. Em 30, marcava os feriados e as férias escolares; substituía o papel selado; criava um conselho financeiro para subsistências. A 31, abolia os direitos do Real de Água e os impostos municipais sobre o arroz e as carnes secas e verdes e abolia os pagamentos dos direitos em ouro sobre estes géneros. (Falando com os comerciantes, o novo ministro da Fazenda visconde do Banho incitava-os «a fazerem entrar no país, em larga escala, as mercadorias assim beneficiadas dizia-lhes com admirável bonomia «Supondo por mera hipótese que se voltava aqui ao regime anterior, os comerciantes que à sombra do novo regime pautal tivessem feito os seus fornecimentos, ficariam imensamente favorecidos.» Não sei, nem o Janeiro o diz, se os comerciantes se deixaram seduzir pelas perspectivas desta transacção. Por certo alguns franziram o sobrolho porquanto este singular ministro das Finanças que assim propõe ao comércio uma combinação que o poderia levar à cadeia, se apressou a acrescentar, sem dúvida risonhamente «Escuso dizer que tenho toda a segurança que é possível ter, de que isto é apenas unia hipótese abstracta (sic) porque nada há que faça recear pela segurança das instituições, aqui restauradas.») A 31, finalmente, a Junta decretava medidas contra os açambarcadores, elevava as penalidades do Código Penal aos comerciantes por grosso, de 1 até 3 anos de prisão e proibição de negociar, e aos retalhistas de 6 meses a 2 anos. Entretanto despachava, nomeava, demitia, reintegrava e justamente um dos seus despachos é lavrado a favor do engenheiro António Teles de Vasconcelos, que se não ó um homónimo, deve ser aquele deputado monárquico que o governo Tamagnini Barbosa foi forçado a expulsar do país, a pedido da polícia inter-aliada. Teles de Vasconcelos, se é o mesmo, fora nomeado para exercer interinamente o cargo de secretário-geral e Director Geral da Fazenda Pública. Um alvará de 29 de Janeiro prestava homenagem à fidelidade e dedicação do município barcelense à dinastia da sereníssima casa de Bragança» e decidia mantê-lo na administração do município. As finanças da Junta não a traziam em cuidado: no dia 30, o ministro do Reino autorizou os pagamentos aos funcionários públicos, à tropa, à Guarda Real, ao Corpo de Polícia, sendo as folhas satisfeitas na Caixa Filial do Banco de Portugal, que não consta ter feito oposição ás ordens de pagamento. Do rei D. Manuel, aclamado no Porto e que ainda não teve, que se saiba, para os restauradores do seu trono, uma palavra de simpatia, tendo-se limitado a dizer em Londres que nunca se sentira tão venturoso como no exílio, não se falava. Apenas o Primeiro de Janeiro fazendo alusão aos boatos que corriam dele estar em Madrid, exprimiu um voto,  mesclado de uma vaga recriminação, ao dizer que tais boatos se justificavam «pois era natural pensar-se que o pretendente ao trono português se esforce por juntar-se aos que o aclamam e se propõem restituir-lhe a Coroa.» Da rainha, dizia-se que fora vista no Ritz, em Madrid, toda de negro, pelo que o Janeiro lhe chamava a Dama Negra e envolta numa peliça que os repórteres dos jornais madrilenos já avaliavam em 100.000 pesetas; mas era tudo. Nem o rei nem a rainha pareciam inspirar maior interesse à monarquia restaurada. Lendo esse jornal, tem-se a impressão de que se fez o vácuo em torno dos homens que tentaram restaurar a monarquia e que afora um número extremamente reduzido de personalidades locais, de longa data conhecidas pelo seu monarquismo, como o conde de Lumbrales 34, o Pedro de Araújo, o Adolfo Pimentel, etc., e afora algumas irmandades e confrarias, o Terço, a Lapa, os Meninos Órfãos, etc., ninguém mais os acompanha na sua aventura. De todo o tempo a realeza contou no Porto com a simpatia de um grupo de damas da alta burguesia local. Pois nem essa contribuição, inevitável e precária tem faltado à monarquia restaurada. Lá andam entre outras senhoras, as Limas, da Boavista, já imortalizadas pelo saudoso Queirós, a fazer subscrições e quêtes para comprar cigarros aos soldados. Dir-se-ia, lendo atentamente o Primeiro de Janeiro, que a monarquia em Portugal não tem público, mas alguns fiéis e que estes mesmos não são muitos e se reduzem, somente, ao Paiva Couceiro, ao conde de Mangualde e ao visconde do Banho, e a poucos mais.

Pelo menos, poucos mais aparecem, contudo, a restauração era um facto em grande número de localidades do Norte. A restauração era anunciada ao Primeiro de Janeiro, de Lamego, Tarouca, Fafe, Monção, Valongo, Alfândega da Fé, Arcos, Famalicão, Barcelos, Nine, Tabuaço, Melgaço, Feira, Castro Daire, Armamar, Pesqueira, Resende, Caminha, Felgueiras, Cerveira, Cinfães, Paredes, Riba Dave e Sernancelhe, sem falar de Viana, de Braga e de Guimarães, onde o entusiasmo público pelo restabelecimento da realeza, não cessava de se manifestar. Braga estava era festa e organizava um batalhão de voluntários, já designados por voluntários d'El-Rei. Em Guimarães, onde o conde de Margaride presidia do seu solar ao regozijo público, houvera Te-Deum, cinco bandas de música percorriam as ruas, os sinos repicavam, subiam ao ar foguetes; o hino da Carta era cantado em coro por um grupo de raparigas. A darmos credito aos correspondentes do Primeiro de Janeiro, a monarquia estava sendo aclamada em todo o Norte. A restauração parecia no entanto fazer-se por processos bastante sumários. Assim, em Paiva e em Arouca, a monarquia fora proclamada por três sargentos. - «Tenho a honra de comunicar a V. Ex.ª telegrafava à Junta o administrador de Penafiel, que constando-me anteontem que ainda não estava proclamada a monarquia em Paiva e Arouca, para ali me dirigi em automóvel com três sargentos de infantaria 32, fazendo imediatamente arvorar a bandeira monárquica em todos os edifícios públicos.» De Viseu, que tinha sido retomado aos monárquicos, sendo presos alguns coronéis e o cavaleiro tauromáquico Manuel Casimiro, actualmente na penitenciária de Coimbra, não fala o Primeiro de Janeiro.

Em Lisboa, o governo Relvas persistia em opor à guerra civil uma situação constitucional, situação tanto mais absurda quanto nunca ela o foi menos, pois nenhum dos poderes em vigor tem constitucionalidade. No entanto era assim. A anomalia era de tal ordem que até um órgão sidonista – o Jornal da Tarde reclamava contra ela, dizia: «Ponham-se de brinda agora as preocupações formais, as exageradas preocupações legais. A república não pode neste momento perder tempo manejando códigos!» Fazia carreira a ideia da formação de um futuro partido republicano conservador, porque os republicanos não desamarram do vil preconceito, que nenhuma lição consegue destruir, de governarem o país de mãos dadas com monárquicos e é ainda o mesmo jornal – coisa singular! - que se pronuncia contra eles, numa frase eloquente: «O charco talassa só produz sapos reaccionários. Não lhe peçam republicanos.» No dia 1 de Fevereiro ainda não tinha seguido para o Norte a coluna de marinha, cuja partida estava anunciada havia já três dias. Em compensação estava projectada a organização de uma coluna, constituída de 200 guardas da polícia cívica da mesma que durante a ditadura de Sidónio Pais andava pelas ruas de Lisboa, armada de carabinas, dando caça aos republicanos. Nas ruas davam-se conflitos entre sidonistas e anti-sidonistas. No Campo Grande, um destes matou um daqueles e os amigos do morto por sua vez lincharam o anti-sidonista. Por causa deste facto houvera manifestações à noite na Brasileira. Era já um princípio da inevitável desordem a que vai dar lugar a política de transacção com o sidonismo. Entretanto, a polícia de investigação andava muito azafamada a procurar os gatunos e vadios que tinham escapado do forte de Monsanto, quando dali saíram os presos políticos. Os monárquicos passeavam com arrogância pelas ruas de Lisboa, «dando-se ares beligerantes,» diz um jornal republicano. Um telegrama de hoje para os jornais de Paris, informa que o Relvas submeteu à câmara um projecto de lei autorizando o governo a tomar medidas de ordem militar e financeira para reprimir rapidamente a insurreição. Isto num parlamento de reaccionários e em que não esta representado nenhum dos partidos da República. Não se crê.

Leote do Rêgo 35 despediu-se ontem de mim anunciando-me que partiria hoje para Lisboa. Ofereceu-se para lá, para defender a República. Não veio resposta e o que veio mais tarde foi uma comunicação anunciando-lhe a vinda de um oficial de marinha, que estaria encarregado de se entender com ele e fazendo um apelo ao seu patriotismo, não para que fosse, mas para que ficasse! Não sabe a gente o que pensar do seu país. Quanto a B. Machado não consta que lhe tenham dito uma palavra e assim continua proscrito. Situação absurda e o absurdo é efémero. Tenho a impressão de que o ministério Relvas caminha metódica e certeiramente para um desastre – que o será para nós todos, pois o crédito moral de Portugal cá fora está esgotado.

 

Paris, 9 de Fevereiro

Notícias de Lisboa, nos jornais de Paris, mais precisas e favoráveis. 0 governo estaria seguro de dominar o Porto e esperaria fazê-lo em breves dias, contando para esse efeito com cinquenta mil homens. Cinquenta mil homens! Era o que se nos tornava preciso na Flandres, dispostos a baterem-se! Os monárquicos disporiam de quinze mil. Não sei onde Portugal foi buscar um tão grande exército. Num número do Século que me chega hoje às mãos leio: «Acerca do brilhante revés (sic) infligido em Águeda, pelas tropas da República, aos revoltosos do Porto, são conhecidos mais pormenores.» Este brilhante revés trouxe-me um momento de regozijo, à Eça de Queirós. Nem tudo são tristezas neste mundo. Está fazendo muito frio: 0 termómetro desceu a 12. Felizmente já não pensamos nos soldados que estão nas trincheiras. Encontrei esta tarde, em casa do A. da Veiga, onde fui ver o Santos Silva 36, a mulher do Leotte do Rego. Anunciou-me que o marido não tinha partido e que esperava o emissário de Lisboa, um oficial de marinha de nome Aires de Sousa, que vem avistar-se com ele em nome do governo.

 

Paris, 10 de Fevereiro

Os jornais de Paris de hoje dão impressões mais consoladoras. - 0 governo inglês desmentiu a notícia propalada pelos monárquicos de que um cruzador inglês obstara ao bombardeamento do Porto, o que poderia dar a entender, diz uma nota do Temps, que a Inglaterra se imiscuía nas lutas interiores; o que não está nas suas intenções. No parlamento espanhol, Romanones 37 declarou não reconhecer outro governo que não seja o governo constitucional republicano. Em Lisboa, porém, o estado de enervamento que era o dos republicanos e de que falava há dias o Mundo, continuava. Os jornais que me chegam hoje às mãos não se queixam da falta de autoridade do governo, porque o ingénuo sentimento republicano lhes proíbe por enquanto de falarem uma linguagem de oposição, mas os factos que vão denunciando e que justamente resultam de uma falta absoluta de autoridade, continuam evidentemente irritando contra ele a opinião. Em Lisboa, os monárquicos, mesmo alguns dos que tomaram parte na última tentativa, gozam de uma inteira liberdade, reúnem-se, espalham todo o género de boatos malévolos. Conspiram, diz o Mundo, e a Capital alarmada, escreve: «Lisboa está cheia de inimigos e espiões.» 0 mesmo jornal revelava que os comandos estavam ainda nas mãos de oficiais «que se dizem neutrais.» As funções públicas, desempenhadas por monárquicos continuavam, nas mãos destes. 0 tenente Teófilo Duarte, nomeado pelo governo, Alto Comissário em Castelo Branco, sublevara-se como era de prever, espalhara manifestos anunciando que ia vingar a morte de Sidónio Pais, hasteara uma bandeira negra, com a inscrição - «À memória de Sidónio Pais» e marchara com uma coluna de infantaria a bombardear a Covilhã. Um louco! De resto, eis aqui, como o governo referia esta triste aventura num comunicado à imprensa:

0 tenente Teófilo Duarte, à frente duma coluna de infantaria, de pequeno efectivo, com duas peças e diminutas munições, dirigiu-se sobre a Covilhã, de onde, após curto combate com elementos de infantaria 21, partiu na direcção da Guarda, saindo-lhe ao encontro, decididas a deter a sua marcha, as forças fiéis ali estacionadas, que neste momento devem estar reforçadas por forma a garantir a ordem e o sossego na região. A bandeira da República flutua na Covilhã e Castelo Branco.

Em Lisboa, o órgão sidonista A Ordem esbracejava. Tendo-lhe passado pela porta uma manifestação, soltando gritos hostis, foi corrida a tiro pela polícia que guardava o edifício do jornal. Este zelo em defender um jornal sidonista dá ideia do que ainda é a polícia de Lisboa. 0 governo entretanto fazia anunciar que estava no firme propósito de manter e respeitar as modificações introduzidas na lei da separação pela ditadura Sidónio Pais.

Os elementos louches que foram a força de Sidónio Pais na capital, faziam alarde de republicanismo, misturavam-se com os republicanos, projectavam conferências de propaganda e já os jornais anunciavam que um dos conferentes seria Cunha e Costa 38; outra vez convertido à República. Machado Santos continuava na ordem do dia, dava entrevistas aos jornais, formulava opiniões, dava sentenças.

Em presença desta situação, os republicanos preparavam-se já para novas lutas. Numa sessão do Centro António José de Almeida, Estêvão Pimentel dizia: «0 povo de Lisboa não deve desarmar. A consolidação do regime republicano vai apenas em meio e talvez a grande luta republicana ainda se tenha de travar.» E Pedro Martins 39, ministro do gabinete derrubado pelo golpe de Estado de 5 de Dezembro, dizia: «Cuidado! A hora em que a República há-de pedir todo o esforço do povo, ainda está para soar!»


Notas:

1. Carlos Henriques da Silva Maia Pinto (1866-1932). Oficial de artilharia, estava no Porto quando, em 1910, se deu a implantação da República, tendo conseguido impedir as movimentações das tropas leais ao regime monárquico no Norte. Em 1921 será sucessivamente ministro das colónias e presidente do conselho de ministros, durante 58 dias.

2. Carlos e Américo Olavo Correia de Azevedo. Carlos Olavo (1881-1958 ), um dos dirigentes da greve académica de 1907, secretário-geral do Governo Civil de Lisboa de 1910 a 1945, deputado de 1910 a 1925, tinha-se oferecido como  voluntário para a frente europeia, tendo sido nomeado oficial de artilharia. Feito prisioneiro durante a Batalha do Lys, escreveu Jornal de um Prisioneiro de Guerra na Alemanha. Aderiu ao Partido Republicano de Reconstituição Nacional de Álvaro de Castro, tendo sido dirigente do grupo parlamentar deste grupo republicano. Américo Olavo (1882-1927) oficial do exército, colaborou em todas as tentativas revolucionárias de derrube da monarquia de 1906 a 1910. Deputado da constituinte de 1911 até 1925, fez parte do gabinete do ministro da guerra Correia Barreto (v. nota 18). Durante a guerra, foi o primeiro oficial a ser condecorado com a Torre e Espada. Feito prisioneiro, como o seu irmão, também escreveu um livro sobre a sua experiência bélica, intitulado Na Grande Guerra. Foi ministro da guerra no governo de Álvaro de Castro, em 1924, tendo sido morto durante o golpe republicano contra a ditadura militar instituída em 28 de Maio de 1926, que se desenrolou de 3 a 10 de Fevereiro de 1927.

3. José Bernardo Pereira Martins (1883-?). Engenheiro agrónomo, foi presidente da câmara municipal de Macedo de Cavaleiros com a proclamação da República. Esteve em França com o Corpo Expedicionário Português.

4. Hélder Ribeiro (1889-1973) era oficial do exército, tendo frequentado a Escola Politécnica e a Escola do Exército. Estudante republicano, deputado às Constituinte de 1911, participou na I Guerra Mundial. Será ministro dos negócios estrangeiros em 1920.

5. Alexandre Braga (1871-1921), filho de Alexandre José da Silva Braga, antigo advogado republicano do Porto, seguiu o pai tanto na profissão como nas ideias política. Deputado em 1906 e em 1908, foi um dos constituintes de 1911. Ministro do interior em Dezembro de 1914, no ministério dos Miseráveis, dirigido por Vítor Hugo de Azevedo Coutinho, deposto pelo movimento das espadas de princípios de 1915, foi eleito deputado nesse mesmo ano, por Lisboa. Com a tomada do poder por Sidónio Pais afastou-se da política, regressando por um breve momento durante o Congresso do Partido Democrático, que se reuniu no Porto em  Dezembro de 1920.

6. António Maria Bettencourt Rodrigues (1854-1933). Médico de doenças mentais, doutorado por Paris, republicano, estabeleceu-se no Brasil em 1892 ao ter sido preterido, devido às suas opiniões políticas, no concurso para preenchimento da vaga de director do Manicómio de Lisboa. Regressado em 1913, foi nomeado embaixador em Paris, tendo sido demitido devido à revolução de 15 de Maio de 1915. Amigo de Sidónio Pais, aderiu ao golpe de Dezembro de 1917, tendo sido reinvestido na sua missão em Paris. Com a morte de Sidónio regressou a Portugal, após uma curta permanência na delegação portuguesa à Conferência de Paz de Paris.

7. Augusto César de Almeida Vasconcelos Correia (1867-1951). Médico e professor, embaixador em Madrid em 1911, ministro dos negócios estrangeiros em 1912 no governo de João Chagas, nomeado presidente do conselho com a queda deste governo, exerceu funções até Janeiro de 1913. Regressou à embaixada de Madrid em 1914, passando para Londres no princípio da Guerra. No fim da Grande Guerra foi nomeado presidente da delegação portuguesa à conferência de paz, tendo continuada a sua actividade diplomática enquanto delegado português na Sociedade das Nações até 1937.

8. Pedro Tovar de Lemos (1888-? ). 2.º conde de Tovar era 1.º secretário da embaixada portuguesa em Londres desde Setembro de 1912, tendo por várias vezes exercido a função de encarregado de negócios interino. Passou à disponibilidade em finais de 1919, só regressando às funções diplomáticas em 1933.

9. António Maria Tovar de Lemos (?-1917), diplomata, foi elevado a Conde em 1890, tendo sido em Agosto de 1910 embaixador extraordinário junto da Santa Sé.

10. Francisco Xavier Esteves (1864-1944). Engenheiro formado pela escola Politécnica do Porto, republicano, foi vereador da Câmara Municipal do Porto, de 1907 a 1910, sendo seu presidente em 1910. Ministro do Comércio e das Finanças no consulado de Sidónio Pais, tinha sido substituído nesta pasta em 1 de Junho de 1918.

11. João Tamagnini Barbosa (1883-1948). Oficial do exército, republicano, apoiou o golpe de Sidónio Pais em 1917, tendo sido sucessivamente ministro das colónias, do interior e das finanças da «República Nova». Foi escolhido para presidente do conselho devido ao assassínio de Sidónio, cargo que ocupou até 7 de Janeiro de 1919. Opôs-se tanto à revolta monárquica de Monsanto, como à do Norte.

12. Teófilo Duarte (1898-?). Oficial do exército, protestou energicamente contra a depuração política realizada após a revolução de 1915 pelo ministro da guerra, o republicano democrático, general Norton de Matos. Tomou parte no golpe derrotado de Machado dos Santos de Dezembro de 1916, e depois no golpe vencedor de Dezembro de 1917 de Sidónio Pais. Em 1918 foi nomeado governador de Cabo Verde, mas pouco se demorou no arquipélago, reaparecendo em Portugal em Janeiro de 1919 a subjugar na Covilhã uma revolta dirigida pelo partido democrático. Pouco tempo depois estava em Santarém, sendo ele quem recebeu a rendição das forças revoltosos dirigidas por Álvaro de Castro. Foi demitido do exército em 1920 tendo sido readmitido em 1926.

13. Domingos Pinto Coelho (1855-1944) filho de Carlos Zeferino Pinto Coelho (1819-1893), principal dirigente político miguelista do seu tempo, foi também dirigente do partido legitimista como o seu pai. Advogado, defensor do cardeal-patriarca e do bispo do Algarve, quando dos problemas religiosos despoletados com a advento da República, foi Bastonário da Ordem dos Advogados. Tendo sido senador durante o consulado de Sidónio Pais, interveio nas sessões após o assassinato do presidente.

14. Francisco de Paula Rodrigues Alves (1848-1919). Presidente da República brasileira de 1902 a 1906, vice-presidente de 1914 a 1918 na presidência de Venceslau Brás, foi eleito novamente em 1918 mas morreu antes de assumir o cargo. Morreu em 16 de Janeiro de 1919.

15. Theodore Roosevelt (1858-1919) Vice-presidente dos EUA, assumiu o poder quando o presidente McKinley foi assassinado em Setembro de 1901. Reeleito em 1904, governou até 1909. Morreu em 6 de Janeiro de 1919.

16. O 1.º e único visconde de Carriche, Isidoro Tomás de Moura Carvalho, morreu em 1887 sem descendência, não se conhecendo renovação do título em qualquer outra pessoa. Parece portanto haver equívoco de João Chagas.

17. António Maria de Azevedo Machado Santos (1875-1921) Oficial de marinha, iniciador da revolução republicana em 3 de Outubro de 1910 e seu dirigente militar, era membro da Carbonária, a organização terrorista republicana. Entrou em ruptura com os dirigentes do partido republicano, tendo apoiado o golpe de Sidónio Pais de Dezembro de 1917. Nomeado ministro do interior, e depois dos abastecimentos, fundou o partido da Federação Republicana, tendo sido assassinado durante o golpe de 19 de Outubro de 1921.

18. António Xavier Correia Barreto (1853-1939). Oficial de artilharia, licenciou-se em ciências físico-químicas, tendo ganho um concurso para a produção de pólvora sem fumo. Conhecido republicano, tendo sido membro do directório do partido, não deixou de ser nomeado, durante a monarquia para vários cargos administrativos. Coronel em 1909, foi o ministro da guerra do governo provisório saído do golpe de 5 de Outubro de 1910, e novamente de 1912 a 1913, sendo o fundador do Instituto dos Pupilos do Exército. Deputado à Constituinte, foi senador em todas as legislatura, sendo presidente do Senado em 1926.

19. Manuel de Brito Camacho (1862-1934). Ministro do Fomento do governo provisório, dirigente da União Republicana em 1911, grupo dissidente do partido republicano, criado em torno do jornal A Luta, conhecido como Partido Unionista, com o início da primeira guerra mundial combateu o governo da União Sagrada, recusando a participação portuguesa na guerra mundial na frente europeia. Apoiou o primeiro governo saído do golpe de Sidónio Pais, tendo mais tarde criado o Partido Liberal, com António José de Almeida. Em 1921 foi nomeado alto-comissário de Moçambique.

20. António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz (1874-1955). Prémio Nobel de Medicina em 1949, doutorou-se em Medicina em Coimbra, sendo transferido mais tarde para Lisboa. Deputado várias vezes entre 1903 e 1917, foi nomeado embaixador em Madrid em 1917, e ministro dos Negócios Estrangeiros de Sidónio Pais, tendo sido o primeiro presidente da delegação portuguesa à conferência de paz, em Paris, que terminou a Primeira Guerra Mundial, tendo sido substituído por Afonso Costa em Março de 1919.

21. Alexandre José Botelho de Vasconcelos e Sá (1872-1929). Oficial de marinha, foi um dos promotores do Cinco de Outubro de 1910. Voluntário na expedição a Angola em 1914, manteve-se em Angola até ao fim das campanhas naquela colónia. Em Maio de 1918 foi convidado para ministro das Colónias.

22. José António da Costa Júnior (?-1931) Médico, membro do Partido Socialista, deputado em 1919, foi ministro do trabalho em 1920 no governo de António Maria da Silva. Acabou por abandonar o PS em 1921 ingressando no Partido Republicano em 1925.

23. António Adalberto Sollari Allegro (1885-1932). Oficial de cavalaria, foi comissário de polícia do Porto durante o sidonismo. Com o assassínio de Sidónio Pais tornou-se a figura preponderante da Junta Militar do Porto, tendo esta divulgado um manifesto em que se assumia como representante do sidonismo. Foi ministro do Reino (Interior) da Junta Governativa Provisória do Reino, presidida por Paiva Couceiro. Quando a «Monarquia do Norte» foi vencida, exilou-se em Espanha.

24. Henrique Mitchell de Paiva Couceiro (1861-1944). Oficial de artilharia, participou em campanhas de pacificação tanto em Angola como em Moçambique, de 1889 a 1895 que lhe valeram das Cortes o epíteto de Benemérito da Pátria. Governador de Angola de1907 a 1909, foi dos poucos oficiais do exército que defendeu a Monarquia em 4 e 5 de Outubro de 1910. Organizou em Espanha forças que fizeram incursões no Norte de Portugal a partir de 1911, tendo conseguindo proclamar no Porto, em 19 de Janeiro de 1919 a Monarquia, sendo presidente da Junta Governativa.

25. Júlio Girão Faria de Morais Sarmento, 3.º visconde do Banho (1867-1928).Formado em direito, foi deputado, ministro da justiça e da instrução pública e governador civil de Coimbra. Fez parte da Junta Governativa da «Monarquia do Norte» em 1919. Preso como fim da revolta, foi amnistiado em 1921. Continuando a defender a causa monárquica, integrou o seu conselho político.

26. Fernando de Almeida Cardoso de Albuquerque, 2.º conde de Mangualde (1874-1932). Oficial de artilharia, casou com Maria Teresa de Sousa Botelho e Melo que se tornaria a única herdeira dos condes de Vila Real e de Melo. Tinha pedido a demissão do exército com a instauração da República. Combateu nas forças monárquicas de Paiva Couceiro desde 1912 e participou na tentativa de restauração da Monarquia no Norte, em 1919.

27.  Pedro Barbosa Falcão de Azevedo e Bourbon, 2.º conde de Azevedo (1875-?). Deputado na última legislatura das Cortes, foi senador durante o sidonismo. Tinha-se exilado em Espanha com a implantação do regime republicano em Portugal, regressando ao país em 1914. Criou o sindicato agrícola de Monção e fomentou a criação de outros, tendo apoiado a criação da federação dos sindicatos agrícolas do Norte. Em 1919 ajudou a proclamar a monarquia no Porto, sendo nomeado ministro da Instrução e da Agricultura, Comércio e Indústria do governo provisório. Com o fim da «Monarquia do Norte» foi preso mantendo-se na prisão até 1921.

28. Venceslau de Sousa Pereira de Lima (1858-1919). Professor de Mineralogia na Escola Politécnica do Porto, membro do Partido Regenerador, vogal do Conselho Superior de Instrução Pública, Par do Reino em 1901, ministro dos negócios estrangeiros no ministério de Hintze Ribeiro, tinha formado um ministério em 1909.

29. Pedro Maria da Fonseca Araújo (1862-1922). Presidente da câmara municipal do Porto, governador civil do distrito, foi também deputado às Cortes e Par do reino, durante a monarquia. Presidente da Associação Comercial da capital do Norte, foi agraciado com o título de marquês da Brejoeira por D. Manuel, mas nunca o usou.

30. António Joaquim Ferreira da Silva (1853-1923). Químico, tendo sido professor da Escola Politécnica e da Escola de Farmácia do Porto, era professor catedrático do grupo de Fisíco-Químicas da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, criadas em 1911 tendo sido seu director de 1911 a 1912.

31. Adolfo da Cunha Pimentel (1881-?). Membro do Partido Regenerador, foi eleito deputado por Braga em 1878, e depois governador civil do Porto.

32. Francisco de Campos Ferreira de Lima, 2.º visconde de Ferreira Lima (1860-1946).

33. Wilson ...

34. João Vítor Pinto da Costa Bartól (1858-1932), 2.º conde de Lumbrales, título espanhol autorizado em Portugal em 1889, era grande proprietário fundiário em Portugal e em Espanha - em Lumbrales, na província de Salamanca.

35. Jaime Daniel Lote do Rego (1867-1923). Oficial de marinha, no início da sua carreira foi  responsável pelo estudo hidrográfico do rio Zambeze. Governador de São Tomé e Príncipe quando foi proclamada a República acabou por aderir ao novo regime. Comandou a força naval que depôs o governo de Pimenta de Castro em Maio de 1915, movimento revolucionário que tendo sido vencedor preparou a entrada de Portugal na Guerra, ao afastar do poder todos os que se lhe opunham. Durante a Primeira Guerra Mundial foi comandante da divisão naval de vigilância e defesa das costas. 

36. Eduardo Ferreira dos Santos Silva (1879-1960).Médico formado e residente no Porto, director da Escola Normal da cidade em 1911, presidente da Câmara de 1915 a 1918, republicano membro do partido democrático, tendo sido proibido de viver no Porto pelo governo de Sidónio Pais, participou voluntariamente no Corpo Expedicionário Português enquanto oficial médico miliciano. Em 1919 foi eleito presidente do Senado municipal.

37. Álvaro de Figueroa y Torres, conde de Romanones (1863-1950), político espanhol liberal, presidente do conselho de ministros de 1912 a 1913, regressou ao poder em 1915, tendo mantido a neutralidade espanhola durante a guerra. Novamente presidente em finais de 1918 teve que enfrentar os movimentos separatistas que apareceram em Espanha com o fim da guerra.

38. José Soares da Cunha e Costa (1868-1928). Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi viver para o Brasil, tendo-se tornado Cônsul de Portugal em Santos. Regressado a Portugal, publicou em 1904 e 1905 no jornal diário republicano Século um grande número de artigos sobre a questão dos tabacos. Vereador da câmara de Lisboa com a República, abandonou o Partido Republicano em 1911, e aderiu à causa monárquica, colaborando em periódicos católicos.

39. Joaquim Pedro Martins (1875-1939). Professor catedrático de Direito, deputado em 1905 e 1908, fez parte da dissidência progressista da José de Alpoim. Participou nas Constituintes de 1911, tendo sido eleito posteriormente para o Senado. Ministro da Instrução no governo da União Sagrada, foi nomeado embaixador junto da Santa Sé em Maio de 1919, posto que ocupou até 1924.

Fonte:

João Chagas, Diário de João Chagas, vol. 4: 1918-1921, Lisboa, Parceria António Maria Pereira, 1932

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