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Maria
Camila.
Cerca
de 1856 fundou-se em Falmouth (Inglaterra) uma escola asilo
denominada Maria Camila. Maria Camila era
o nome de uma filha de J. M. Camilo de Mendonça, negociante da praça
de Lisboa.
Deu lugar a este baptismo o
seguinte facto: Um navio de Mendonça salvou no alto mar dezanove náufragos
ingleses, que encontrou em um pequeno escaler quase soçobrado,
tendo esta gente perdido todas as esperanças de salvação, porque
dois navios haviam passado por eles e não quiseram recolher os
infelizes. Mas o navio português, o Maria
Camila, com muito risco, porque o vendaval era grande, salvou os
míseros, recolhendo-os a seu bordo. O navio levava carga de café,
e não tinha senão os mantimentos para a tripulação. Dezanove
homens a mais a alimentar, devia produzir grande desfalque na
dispensa e aguada. Foi o que aconteceu. Depois de passarem muitas
fomes e sedes entraram em Falmouth, e quando ali constou o sucedido
a população socorreu os salvados. O almirante inglês, segundo os
seus regulamentos, tinha de dar ao navio uma grande indemnização
pelo sustento dos náufragos. Não a quis receber o ânimo bizarro
de Camilo de Mendonça que a mandou entregar ao cônsul português
na referida cidade, para ser dada a um asilo de crianças
abandonadas do sexo feminino, visto a denominação do navio ter
referência a uma menina. Não são precisos estímulos de
recompensas pecuniárias para os portugueses valerem ao seu
semelhante em lances tão aflitivos. Esta acção foi muito
aplaudida por toda a imprensa inglesa, que naquela época muito
escreveu sobre a recíproca simpatia lusitana e britânica. Na ocasião
em que tal sucedia tratava-se em Falmouth de fundar um colégio para
órfãos desamparados, e os seus fundadores, em memória do grande
feito do Maria Camila derão-lhe
essa denominação. Mendonça, quando lhe constou a inesperada
aplicação do seu donativo, apenas impôs a cláusula de nos
estatutos do estabelecimento se inscrever a condição de que quando
houvesse concorrentes demais à admissão, deviam ser preferidos os
filhos dos navegantes cujas mortes fossem ocasionadas por sinistros
marítimos.
Transcrito por Manuel Amaral
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Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume
IV, págs. 835-836
Edição em
papel © 1904-1915 João Romano Torres - Editor
Edição electrónica © 2000-2010 Manuel Amaral |
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