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Meneses (D. Aleixo de).
n. f.
Aio do rei D. Sebastião.
Era filho de
D. Pedro de Meneses, primeiro conde de Cantanhede, e ainda muito
novo estreou-se na carreira das armas assistindo com seu tio D. João
de Meneses à tomada de Azamor em 1518. Passando em seguida ao
Oriente com o governador Lopo Soares de Albergaria, foi encarregado
do comando duma esquadra, com a qual percorreu as costas da Arábia,
entrou no combate de Djédá e na tomada de Zeila, e pouco depois
defendeu Malaca contra o rei de Bintam. Durante uma ausência de
Diogo Lopes de Sequeira governou interinamente os estados da Índia,
e voltando ao reino ainda foi de novo a África para reformar e
prover os presídios de Arzila, Azamor e Tânger.
Cumprida a missão
e regressando à pátria, foi escolhido para varias missões de
confiança, e enviado como embaixador a Carlos V, cuja estima
granjeou em tão alto grau que aquele soberano o escolheu para
padrinho do seu neto, o príncipe Carlos, D. João III, que teve
sempre a maior consideração por este fidalgo, o nomeou aio de seu
filho, o infante D. João, mordomo-mor de sua mulher, a rainha D.
Catarina, e em testamento o deixou indicado para aio do seu neto D.
Sebastião. A escolha era acertadíssima, e poderia ter produzido os
mais excelentes resultados se em Portugal não existisse o cardeal
infante D. Henrique e não tivesse entrado a Companhia de Jesus. A
D. Aleixo de Menezes foi entregue a guarda da criação e pessoa de
D. Sebastião, quando apenas contava 9 anos de idade, melindroso
encargo, de que tão nobremente se desempenhou o honrado fidalgo, até
ao momento em que o seu real educando tomou as rédeas do governo,
sendo aclamado rei de Portugal. Prestes estava D. Sebastião a
chegar aos 6 anos de idade, quando pareceu indispensável tratar-se
de escolher mestre que o ensinasse. Muito divididos foram os
pareceres no conselho enquanto à escolha, prevalecendo afinal o do
cardeal infante D. Henrique, que opinara e veemente instara para que
fosse preferido o padre jesuíta Luís Gonçalves da Câmara.
O experiente e honrado D. Aleixo de Menezes votara contra a escolha
dum religioso para mestre do seu pupilo, e concluiu «que qualquer
que o mestre fosse, se tivesse advertência em não ter mão em
el-rei, mais que nas cousas tocantes a seu cargo, porque algumas
vezes ouvira dizer ao imperador Carlos V, que os príncipes instruídos
nas artes do governo e guerra tinham ciência bastante em sabendo
rezar por umas horas.» Foi desprezado, graças aos manejos e
tenacidade do cardeal infante, grande protector dos jesuítas; o
discreto e previdente voto do nobre aio de D. Sebastião. A carreira
militar deste brioso guerreiro devia concorrer para ascender, ainda
que involuntariamente, o fatal entusiasmo de D. Sebastião. D.
Aleixo de Menezes era muito sensato e tinha muito bons desejos, mas
não podia de certo renegar todas as tradições da sua vida
anterior; e o exemplo das acções do aio era mais próprio a
excitar do que a moderar os ímpetos do génio cavalheiresco e
arrojado do seu jovem pupilo.
D. Aleixo de Meneses procurou opor-se
aos excessos da índole guerreira e das inclinações ascéticas do
príncipe cuja educação lhe fora confiada, e num documento que os
cronistas lhe atribuem, o ilustrado fidalgo diligenciou chamar a
atenção do seu educando para os mais graves perigos. Nesse
documento, que dizem ser obra de D. Aleixo, aconselhava este o jovem
monarca a desconfiar dos aduladores que procurassem desviá-lo da
intimidade de sua avó e do cardeal, precavia contra a exaltação dos
seus brios belicosos, rogando-lhe que não arriscasse as forças do
reino em impossíveis e temerárias empresas, pedia-lhe que não
desse valimento sucessivo aos fidalgos moços, arredando de si os
homens experientes e encanecidos na prática dos negócios,
continuava manifestando o desejo de que os religiosos não fossem tão
amiúde distraídos dos seus deveres próprios para se ocuparem nos
negócios profanos da governação do estado, e por fim, como quem
conhecia a índole severa e puritana de D. Sebastião, lembrava ao
rei que para extirpar abusos inveterados era necessário proceder
com grande tacto, e por isso lhe aconselhava, que não ordenasse de
leve mudanças nos trajos e nos costumes, que ponderasse muito
qualquer alteração na moeda ou nas medidas e pesos estabelecidos,
porque tais providencias haviam de levantar sempre descontentamento
dos interesses lesados no primeiro golpe e introduzir grande
perturbação nas transacções comerciais. Neste documento, que se
encontra no tomo III das Memorias para a historia de Portugal,
que comprehendem o governo d'el-rei D. Sebastião, por
Diogo Barbosa Machado, há muitas alusões contra o padre Luís Gonçalves
da Câmara e os planos da Companhia de Jesus, e no meio de traços
fugitivos com que nele são desenhados em geral os
perigos principais de que o novo monarca devia afastar-se, sobe esse
a figura do confessor; é natural portanto que este, valendo-se da
influência que alcançara do rei conseguisse fazer com que D.
Aleixo de Menezes perdesse as boas graças do monarca, mas a
Companhia não precisou empregar maior luta, porque o nobre fidalgo
morreu a 7 de Fevereiro de 1569.
A morte de D. Aleixo de Menezes foi
uma grande perda para Portugal, porque os jesuítas viram-se à
vontade, e D. Sebastião não tardou a tornar-se um seu escravo, e não
tendo já o seu fiel e honrado aio para lhe aconselhar a afastar-se
dos iminentes perigos que lhe preparavam, D. Sebastião deixou-se
dominar pela sua índole guerreira, que os lisonjeiros animavam, de
que resultou a fatal batalha de Alcácer Quibir, em que Portugal
perdeu a sua independência, ficando sob o domínio de Castela.
Transcrito por Manuel Amaral
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