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Pinheiro Chagas (João).
n. 1 de Setembro de 1863.
f. [28 de Maio de 1925]
Jornalista e escritor.
N. no Rio de Janeiro a 1 de
Setembro de 1863, sendo descendente duma família de Liberais, que
no período das lutas civis teve de emigrar.
Veio para Portugal, e foi
educado em Lisboa, indo depois para o Porto, onde, dedicando-se ao
jornalismo, entrou em 1883 para a redacção do Primeiro de
Janeiro. Naquele jornal começou logo a manifestar dum modo notável
as suas brilhantes qualidades literárias, imprimindo na secção de
noticiário a feição toda moderna, e fazendo da reportagem até aí
a cargo de localistas banais, uma secção cheia de interesse, de
pitoresco e de brilho. Depois de permanecer alguns anos naquela
redacção, veio para Lisboa com a ideia de montar um jornal
republicano, e colaborou então no Tempo, Correio da Noite,
e no Dia. O jornal que intentava fundar foi a Republica
portugueza, onde muito se distinguiu na polémica política
vigorosa contra as instituições, pela veemência da argumentação,
e pela forma artística que dava aos seus artigos, ainda os mais
violentos.
Em 1890, em seguida ao Ultimatum
de Inglaterra de 11 de Janeiro, que promoveu em todo o país uma
profunda agitação, escreveu com a sua reconhecida energia uma série
de artigos sobre o assunto. A sua atitude de jornalista envolveu-o
naturalmente em alguns processos, de que lhe resultou ser preso na
Relação, e por um desses processos foi condenado, em 26 de Janeiro
de 1891, a 10 dias de prisão, sentença que estava ainda cumprindo
quando no dia 31 desse mês rebentou a revolta no Porto. Como a sua
atitude na Republica Portugueza fosse de ataque violento, e
nalguns artigos apelasse para a intervenção do exército como o
meio mais rápido de vingar o insulto que a nação recebera de
Inglaterra, expiados os 10 dias da sentença, continuou ainda preso
na Relação, come cúmplice da revolta e um dos seus principais
promotores, sendo como tal julgado nos conselhos de guerra que
funcionaram em Leixões, e condenado a 4 anos de prisão celular, ou
na alternativa, a 6 de degredo. Em 20 de Setembro do 1891 embarcou a
bordo do transporte Índia, que estava fundeado em Leixões, sendo
conduzido pela polícia à estação das Devezas, partindo à noite
no comboio para Lisboa. Veio desembarcar na estação dos Olivais,
partindo dali num trem com o comissário de polícia, então o Sr.
Pedroso de Lima, entre guardas. Chegando ao Cais dos Soldados passou
o preso para um escaler a vapor do arsenal, guarnecido por
marinheiros armados e comandado por um oficial de marinha. O escaler
atracou pouco depois ao vapor S. Tomé, e cujo comandante o preso
foi confiado, para que ele o entregasse às autoridades de Moçamedes.
O vapor largou ferro no dia 20 de Setembro de 1891. Em África
tentou pôr em prática um plano de evasão, já antecipadamente
estudado, mas falhou essa tentativa, conseguindo, porém, mais
tarde, em 1 de Novembro, realizar esse audacioso projecto, fugindo
para Paris, onde chegou, após de varias peripécias, que ele narra
no seu curioso livro Trabalhos forçados, a 15 de Janeiro de
1892. Levado pelo seu espírito irrequieto e audacioso, que ainda
nos momentos mais graves, se manteve sempre na mais perfeita
serenidade, aventurou-se em Fevereiro seguinte, a entrar em Portugal
clandestinamente, estando uns dias no Porto sem a polícia nada
saber. Em Setembro do mesmo ano tentou novamente vir ao Porto, mas
dessa vez teve a infelicidade de ser descoberto e preso numa casa da
rua de Santo Ildefonso, onde um amigo íntimo o recebera. Sendo
novamente conduzido para África a cumprir o degredo, foi
encarcerado na fortaleza de S. Miguel, e ali permaneceu até 1893,
regressando então a Portugal, em virtude da amnistia decretada para
os então criminosos políticos da classe civil. Continuou a viver
no Porto, onde sempre foi muito estimado. Os trabalhos sofridos nem
o alquebraram nem o desalentaram, e chegando a Portugal, publicou em
1893 e 1894 os Pamphletos que foram logo querelados, e em
1897 e 1898, o jornal A Marselheza, que igualmente foi
querelado e muitas vezes apreendido. Tendo de responder por vários
processos de querela emigrou para Madrid, explicando os motivos que
o levaram a proceder desse modo, redigindo daquela capital o Paiz,
cuja direcção assumiu em 1898, quando o redactor principal Alves
Correia foi obrigado a sair por causa da enfermidade que, pouco
depois, o levou à sepultura. Quando estava cumprindo sentença em
África, foi proposto deputado por acumulação, reunindo em todo o
país uma grande votação.
João Chagas foi um dos
fundadores da Associação dos Jornalistas e Homens de letras do
Porto, e tem escrito e publicado as seguintes obras: Diario dum
condemnado politico; Na brécha; De bond; Crime
da Sociedade; desta obra só uma parte lhe pertence; pois teve
de interromper o seu trabalho durante o tempo em que permaneceu em
Madrid, de 1898 a 1899; Trabalhos forçados; Historia da
Revolta do Porto, tendo por colaborador Manuel Maria Coelho.
Traduziu a Martyr de D'Ennery, primeiramente publicada em
folhetins no Primeiro de Janeiro, e a prosa da opereta Os Bandidos, de Offenbach,
que se representou no teatro do Príncipe Real do Porto.
Na revolta projectada de 28 de Janeiro de 1908, que
ficou malograda, também o Sr. João Chagas esteve envolvido, o que
lhe valeu ser preso a encarcerada no quartel dos Paulistas, donde
saiu depois do assassínio do rei D. Carlos e do príncipe real D.
Luís Filipe, em 1 de Fevereiro, e da queda do ministério João
Franco. Mais tarde, pela amnistia concedida aos prisioneiros políticos,
ficou completamente livre, prosseguindo na sua vida de jornalista a
de escritor, sendo um dos membros mais importantes do partido
republicano.
Transcrito por Manuel Amaral
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