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Ramalho
Ortigão (José Duarte).
n. 24 de Outubro de 1836.
f. [ 27 de Setembro de 1915.]
Escritor,
jornalista, bibliotecário da Biblioteca da Ajuda, oficial da
secretaria da Academia Real das Ciências, etc.
N. no
Porto a 21 de Novembro de 1836, sendo filho do professor Joaquim da
Costa Rama lho Ortigão, oriundo duma nobre família do
Algarve.
Fez os
seus estudos preparatórios no Porto, e dedicou-se também ao magistério
como seu pai. Leccionou no colégio da Lapa, que seu pai dirigia, e
sentindo uma grande inclinação para as letras, entrou para a redacção
do Jornal do Porto, tomando a seu cargo a secção noticiosa e
folhetim. Naquela folha colaboravam então os políticos mais em
evidência. Ramalho Ortigão logo se afirmou um espírito cintilante
e pitoresco, revelando as altas qualidades que lhe deviam dar nas
letras um lugar tão especial. Lançado na vida do jornalismo, e
tendo sido nomeado oficial da Academia Real das Ciências, veio em
1879 para Lisboa estabelecer definitiva residência.
Colaborou então nos seguintes jornais: Revolução
de Setembro, Diário de Notícias, Diário Popular,
Jornal do Comércio, Diário da Manhã, etc. A sua
prosa, cheia de plasticidade e brilho, a riqueza do seu vocabulário,
a graça tão picante e fina do seu comentário, lhe criaram a
reputação de eminente escritor. Foi convidado a escrever cartas
semanais para a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro. De
colaboração com o já falecido escritor Eça de Queirós, escreveu
em 1871 o interessante romance O mistério da estrada de Sintra,
que se publicou em folhetins no Diário de Notícias, e mais
tarde foi reimpresso numa colecção romântica editada pela
Parceria Pereira. Este livro motivou um grande movimento de
curiosidade, por se julgar que os factos ali narrados eram
verdadeiros e não fantasiados. No mesmo ano de 1871, também de
colaboração com o citado escritor, fundou a publicação
intitulada: As Farpas, chronica mensal da politica, das letras e
dos costumes. Esta colecção que consta de 39 volumes, foi
muito apreciada por toda a imprensa, e a ela se referiram também
diferentes cronistas estrangeiros com palavras elogiosas. De Ramalho
Ortigão conhecemos os seguintes livros: Litteratura de hoje,
Porto, 1866; Em Paris, Porto, 1868; são estudos e observações
do autor na digressão que fizera a Paris por ocasião da exposição
universal de 1867; Contos côr de rosa, Lisboa, 1870; este
volume contém: A dança, A morte de Rosinha, Gastão,
Ella e elle, Uma visita de pezames, e Na Aldeia; Hygiene
da alma, pelo barão de Feuchterleben, versão portugueza;
Lisboa, 1873; É o tomo I da Bibliotheca dos livros uteis, da
que foi editor o antigo livreiro António Maria Pereira; Ginx's
Baby, versão portuguesa, 1874; 2 tomos; constituem os n.os
9 e 10 da Bibliotheca da Actualidade, do Porto; Banhos de
caldas e aguas mineraes, Porto, 1875, com gravuras intercaladas
no texto e 13 estampas em separado; tem uma introdução escrita por
Júlio César Machado; Notas de viagem, Rio de Janeiro, 1878;
saíra primeiro no jornal a Gazeta de Notícias da mesma
cidade; As praias de Portugal; guia do banhista e do
viajante, Porto, 1876; com 10 estampas; La Rénaissance et les
Lusiades; préface d'une nouvelle édition des Lusiades, faite par
le «Cabinet Portugais de Lecture» de Rio de Janeiro, etc.; Traduit
du portugais par F. F. Steenakers, Lisbonne, 1880; é a versão
do prólogo de que fora incumbido Ramalho Ortigão para a edição
luxuosa dos Lusíadas, mandada fazer por conta do Gabinete Português
de Leitura, do Rio de Janeiro, em comemoração do tricentenário de
Camões; A instrucção secundaria na camara dos senhores
deputados, Rio de Jaueiro, 1883; John Bull, A Hollanda,
O Culto da Arte em Portugal, etc. Também lhe pertencem o prólogo
da edição das Primaveras, de Casimiro de Abreu, feita pelo
editor portuense Cruz Coutinho; e um estudo francês, intitulado Coup
d'oeil sur Ia civilisation au Brésil, fazendo parte do Catálogo
da Exposição do Brasil em Amesterdão. Escreveu nos primeiros anos
do jornal satírico e de caricaturas Antonio Maria, fundado
por Bordalo Pinheiro; e também publicou algumas biografias humorísticas
no Album das Glorias, etc., sob o pseudónimo de João Ri
baixo. Ramalho Ortigão foi um dos jornalistas que trabalharam
com mais entusiasmo para a celebração do tricentenário de Camões,
fazendo parte da comissão executiva das brilhantes festas que se
realizaram em Lisboa, no ano de 1880.
Ele e Pinheiro Chagas foram os delegados
que o governo mandou como representantes de Portugal, em 1893, à
Exposição Histórico Europeia de Madrid, por ocasião das festas
comemorativas do centenário de Cristóvão Colombo. Traduziu a comédia
em 4 actos, de George Sand O marquez de Villemer que se
representou no teatro de D. Maria lI. Também publicou algumas
poesias no antigo jornal portuense A Grinalda. Ramalho Ortigão
tem viajado muito, e o seu excelente livro Hollanda, já,
mencionado, é a descrição duma dessas viagens. Ainda que avançado
em idade, o seu espírito não envelhece. Diz um dos seus biógrafos:
«Ramalho não acusa nem cansaço nem esmorecimento. É o mesmo
artista de sempre, o burilador delicioso da frase, o anotador
pitoresco e alegre, o crítico austero e delicado, o ironista
delicioso e brilhante. Duma grande exuberância de fantasia e
conhecendo perfeitamente a sua língua, que maneja com abundância e
gosto, Ramalho é um dos escritores mais notáveis da sua geração.
A sua prosa elegante, tersa, plástica, cheia de cor e de harmonia,
é inconfundível como a sua personalidade. Alto, direito, forte,
duma solidez perfeita e duma robustez magnífica, Ramalho com mais
de 70 anos é ainda um rapaz, ágil, vibrante, e com o mesmo espírito
e a mesma vivacidade dos anos juvenis. Ao passo que em volta de si
tudo e todos envelhecem numa tristeza apagada, Ramalho como que
rejuvenesce realizando o milagre da suprema força na idade em que
ainda os mais animosos se deixam vencer e dominar pelos achaques e
pelas desilusões da vida.
Varão magnífico, poucos são os
rapazes que possam competir com ele em louçanias de espírito e em
robustez física. Os seus hábitos de vida simples e confortável, a
sua higiene rigorosa, à inglesa, a sua alegria constante deram-lhe
essa consistência formidável que o assentaram com firmeza na vida.»
Ramalho Ortigão foi nomeado há
bastantes anos bibliotecário da Biblioteca da Ajuda. Por decreto de
23 de Janeiro de 1901 foi agraciado com o titulo de académico de mérito
da Academia Real de Belas Artes e por decreto de 30 de Novembro de
1907 foi nomeado vogal do Conselho Superior de Instrução Pública
por parte da mesma Academia.
Transcrito por Manuel Amaral
Ramalho
Ortigão no Espaço «Aprender Português»
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