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Ratton (Jacome).
n. 7 de Julho de 1736.
f. c.1822
Industrial e
negociante da praça de Lisboa; deputado do tribunal supremo da Real Junta do Comércio, Agricultura, Fábricas e Navegação; fidalgo
cavaleiro da Casa Real e cavaleiro da ordem de Cristo. Sendo francês
de nascimento, tornou-se português pela sua naturalização.
Nascera na cidade de Monestier de Briançon, na província do Delfinado,
mais tarde departamento dos Alpes, em França, a 7 de Julho de 1736.
Faleceu em Portugal cerca de 1822. Era filho único de Jacome Ratton
e de Francisca Bellon, naturais da mesma cidade.
Pouco depois do seu nascimento vieram seus pais para Portugal e aqui se
estabeleceram com uma casa de comércio, de sociedade com Jacome
Bellon, seu cunhado, o qual já estava estabelecido no Porto. Depois
de fixarem definitivamente em Lisboa a sua residência, mandaram vir
o filho, que chegou aqui em 7 de Maio de 1747, e completaram em
Portugal a sua educação, toda dirigida no sentido do comércio,
cuja teoria e prática conhecia perfeitamente quando, em 1758, seus
pais o instaram para casar, visto ser filho único. Escolheu então
para sua mulher a Ana Isabel Clamouse, filha do cônsul francês no
Porto, Bernardo Clamouse. Pouco depois foi encarregado da liquidação
da casa comercial de seus pais e tio, que lha tinham cedido, ao
retirarem‑se para França. Desde logo manifestou uma grande
actividade e uma arrojada iniciativa, nos mais variados assuntos do
comércio, indústria e agricultura. A primeira coisa que projectou
foi, em 1764, uma fábrica de chitas, que suscitou o estabelecimento
de outras, e depois uma de papel. Em Elvas fundou uma fábrica de
chapéus finos, e outra em Lisboa. Em 1789, associando-se com outro
francês ilustradíssimo Timóteo Lecussan Verdier, fundou a fábrica
de fiação de algodões de Tomar, que tanta importância deu aquela
terra. Promoveu a criação de outras empresas importantes, para as
quais encontrava largo auxílio no governo, que então era o do
Marquês de Pombal, sempre tão empenhado em desenvolver a indústria,
a agricultura e o comércio da nação portuguesa. Foi em 1762, que
Jacome Ratton se naturalizou cidadão português. Em 1767 tratou de
explorar umas marinhas de sal importantes na Barroca de Alva, nas
proximidades de Alcochete. Para esse fim aforou uma grande extensão
de terrenos incultos, conhecidos pelo Sapal de Pancas; depois
enxugou pântanos, saneando lugares onde nunca se criara um homem,
fez grandes culturas, construiu
uma casa magnífica para sua residência, e fundou finalmente um
valiosíssimo estabelecimento agrícola e industrial. Muito dedicado
à arboricultura, fez aqui, entre outra outras tentativas, um
viveiro de amoreiras brancas de que podia dispor de 12.000 pés. De
árvores exóticas plantou neste lugar o primeiro eucalipto
que houve em Portugal. A primeira araucária, bela árvore que se
admira na quinta dos duques de Palmela, no Lumiar, foi também
importada por Jacome Ratton.
Em 1788 foi nomeado deputado
da Junta do Comércio e de pois fidalgo cavaleiro da Casa Real,
recebendo ao mesmo tempo o hábito de Cristo. Vivia tranquilo,
respeitado, considerado e feliz, rodeado de seus filhos, escrevendo
as suas memórias, quando em 1807 veio a invasão francesa de Junot.
É provável que, apesar de se achar naturalizado português, ou
não desgostasse de ver tremular aqui a bandeira do seu país, ou
pelo menos mantivesse relações amigáveis com os seus
ex-compatriotas. Tudo isto é natural. Mas ainda que Jacome Ratton
se conservasse completamente afastado do governo de Junot, bastavam
o seu nome de estrangeiro, a sua ilustração e o seu espírito
naturalmente inclinado ás ideias do progresso, para o indigitar
como jacobino. Assim o trataram, e foi Jacome Ratton uma das
vítimas da famosa setembrizada. Já em Junho de 1810, por
informações que a Regência enviara para o Rio de Janeiro, fora
demitido do lugar de deputado da Junta do Comércio, em que esteve
durante mais de vinte e dois anos, prestando notáveis
serviços.
Na noite de 10 para 11 de
Setembro do referido ano de 1810, foi preso para a Torre de S.
Julião e transportado cinco dias depois para bordo da fragata
Amazona, que o devia conduzir, juntamente com outros jacobinos, para
a ilha Terceira, onde chegaram a 24 do mesmo mês. À força de
súplicas e de empenhos, conseguira Ratton que lhe permitissem
exilar-se voluntariamente para Inglaterra. Passou então para bordo
da fragata inglesa Lavinia, a qual tinha seguido a Amazona
desde o Tejo até à ilha Terceira, comandada por Lord William
Stuart. Ratton, como outros companheiros, tinha passaporte do
ministro britânico em Lisboa para passar à Inglaterra, mas os
governadores do Reino retiveram esses passaportes e Ratton ainda
esteve preso no Aljube de Angra e deveu à diligencia de Lord Stuart
o passar sem demora para bordo da Lavinia, que o levou a
Portsmouth, donde partiu para Londres. Aqui, junto de seu filho
José Luís, que havia pouco fora de Portugal para se estabelecer em
Inglaterra, escreveu e publicou, em 1813, a obra intitulada: Recordacoens
de Jacome Ratton, fidalgo cavalleiro da Caza Real, cavalleiro da
ordem de Christo, ex-negociante da praça de Lisboa, e deputado do
tribunal supremo da Real Junta do Commercio, Agricultura, Fabricas e
Navegação. Sobre occurrencias do seu tempo, em Portugal, durante o
lapso de sessenta e tres annos e meio, aliás de maio de 1747 a
setembro de 1810, que rezidio em Lisboa: acompanhadas de algumas
subsequentes reflexoens suas, para informaçoens de seus proprios
filhos. Com documentos no fim. Londres. Impresso por
H. Bryer, Bridge Street, Blackfriars, 1813. Esta
curiosíssima obra constitui um volume de 969 páginas, com o
retrato do autor desenhado por H. L'Eveque e gravado por J.
Vendramini, e uma planta das suas propriedades da Barroca de Alva.
É de uma grande importância pela vasta cópia de informações e
de esclarecimentos que encerra, tudo acompanhado de reflexões,
quase sempre judiciosas, e de anedotas interessantes, relativas
principalmente ao governo do marquês de Pombal e à reacção que
se lhe seguiu. Não pôs à venda exemplar algum, e limitou-se a
brindar com eles os seus amigos. Por morte destes vieram alguns
exemplares para o mercado, mas em diferentes épocas parece que
houve interessados no seu desaparecimento, tornando-se o livro tão
raro quão apreciado. Quando em 1815 se fez a paz geral, pôde
Jacome Ratton regressar a Lisboa e acabar aqui tranquilamente os
seus dias nos fins de 1821 ou princípios de 1822.
Ainda em
1816 publicara no Investigador portuguez um artigo Pensamentos
patrioticos. Imperio luso. Seu filho Diogo Ratton foi feito
barão de Alcochete (V. este título) e Inocêncio, no seu Dicionário
Bibliográfico, declara não saber se são dele se de seu pai os
seguintes opúsculos, intitulados: Reflexões sobre o papel-moeda
e Reflexões sobre o commercio e fazenda, publicadas em 1822.
Pinheiro Chagas, no seu Dicionário Popular, inclina-se que
estes escritos sejam de Diogo Ratton. Jacome Ratton foi ascendente
directo do conde de Daupias (V. este título), um esclarecido
industrial, falecido em 1900.
Transcrito por Manuel Amaral
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