Portugal - Dicionário
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Torres (Lucas Evangelista).

n. 18 de Outubro de 1822
f.  4 de Agosto de 1895

Decano dos tipógrafos portugueses. N. a 18 de Outubro de 1822 e fal. A 4 de Agosto de 1895. Era filho dum convicto liberal, Manuel de Jesus, voluntário das tropas de D. Pedro IV, onde chegou ao posto de capitão. 

Quando seu pai morreu, andava Lucas Torres estudando para medico, tendo já o curso muito adiantado, pois, que frequentava o 1.º ano de hospital, porém essa morte não lhe permitiu continuar os estudos. Todavia há indicações de que seu pai era riquíssimo, negociava em larga escala em vinhos, tinha grandes armazéns na rua doa Bacalhoeiros, junto da célebre Casa dos bicos; tendo, porém, um sócio, e por não haver escritura nem outras maiores provas que pudessem valer nas épocas calamitosas das lutas civis que atravessava a nossa pátria, Lucas Torres viu-se esbulhado da herança paterna: Assim, muito novo, órfão e pobre, foi para a tipografia dum seu parente, e ali aprendeu a arte, a qual fez progredir, e se engrandeceu no honroso mister de editor inteligente o consciencioso, adquirindo grande fama entre os da sua classe, e contando numerosos amigos. Lucas Torres honrou muito a arte tipográfica, de que foi um prestimoso propagandista. Era homem ilustrado, muito conhecedor da sua arte, e dedicado à leitura de livros bons e instrutivos, enriquecendo assim o espírito, tornando-se um repositório de literatura histórica e amena. Principiando a exercer a sua indústria em épocas agitadas de bem triste memória, bastantes vezes foi vítima das perseguições civis que a ele, como liberal convicto que era, lhe moviam os inimigos da liberdade. Quantas vezes a sua tipografia foi assaltada por emissários do governo, e quantas vezes destruída. Na verdade, os inimigos tinham razão, porque dali saíam os mais vibrantes brados de liberdade, impressos em segredo nos prelos manuais por Lucas Torres, saíam alguns jornais e panfletos que muito contribuíram para a propaganda liberal. Todavia, escondido, ora aqui, ora acolá, ia imprimindo os vibrantes originais de António Rodrigues Sampaio, para o Espectro; os originais biliosos e chocarreiros do padre João Cândido de Carvalho, esse célebre jornalista satírico e verrinoso do Cortador, do Azorrague, do Democrata, e redactor do Rabecão de impagável memória. 

Prosseguindo nesta sua arte que tantas incertezas e desgostos lhe acarretava no meio da falta de segurança que caracteriza as lutas civis, Lucas Torres, que já estudara para medico, foi ilustrando se ainda mais com o convívio dos principais homens de letras. Daí o tornar-se um escritor a quem não faltavam primores de estilo nem erudição de conhecimentos de variada natureza. Foi assim que nos últimos 25 anos da sua existência, tendo-se já avantajado ás largas empresas editoriais, editou a Educação Popular, colecção de 16 volumes sob a direcção de Pinheiro Chagas; a Enciclopédia das Famílias, que já contava mais de 100 volumes quando faleceu, e que ainda se publica na mesma tipografia, de que é proprietário seu filho Manuel Lucas Torres; A Biblioteca Universal, colecção de 40 volumes, sob a protecção do grande visconde de Castilho, na qual colaboraram os mais notáveis escritores. Foi na Enciclopédia das Famílias que Lucas escreveu com maior assiduidade, colaborando também superiormente nos jornais Federação e Artista. Das suas aptidões de escritor e de editor resultou o bom êxito de muitas empresas desse género. Carácter exemplar, repartia sabiamente o tempo pelos seus multíplices encargos e trabalhos de administração da sua importante casa. Nela encaminhou na vida pratica do trabalho, num certo meio literário artístico, seus filhos, os estimados editores João Romano Torres e Manuel Lucas Torres e Fernando Augusto Torres, actual director da oficina tipográfica da Imprensa Lucas. V. Torres (João Romano), neste volume, e Lucas & Filho, no volume IV.

 

 


Transcrito por Manuel Amaral

 

 

Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume VII, pags. 181-182.

Edição em papel © 1904-1915 João Romano Torres - Editor
Edição electrónica © 2000-2010 Manuel Amaral