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Filipe II de Espanha e I de Portugal.
n.
1527
f. 13 de Setembro de 1598
O
Prudente.
Nasceu em Valladolid em 1527, faleceu no Escurial a 13
de Setembro de 1598. Era filho de Carlos V, imperador da Alemanha, e
da imperatriz D. Isabel, filha de el-rei D. Manuel, de
Portugal.
Casou
em 15 de Novembro de 1543, contando 16 anos de idade, com a infanta
D. Maria, que também contava a mesma idade, filha de D. João III e
da rainha D.: Catarina, a qual faleceu dois anos depois, a 12 de
Julho de 1545. Ficando viúvo aos 18 anos, Filipe assim se conservou
até 1551, em que casou com Maria Tudor, rainha de Inglaterra, e foi
residir em Londres, mas tornou-se tão pouco simpático aos
ingleses, que estes, com o maior prazer o viram partir em 1555 para
os Países Baixos, cujo governo Carlos V lhe cedeu, como
anteriormente lhe cedera, um ano antes, o governo de Nápoles e da
Sicília, e como lhe cedeu mais tarde, em 1556, a coroa de Espanha,
quando completamente abdicou para se recolher no mosteiro de S.
Justo. Filipe enviuvou também da rainha de Inglaterra, falecida em
1558, e tornou a casar, pela terceira vez, com a princesa de França,
Isabel de Valois, filha de Henrique II. Não seguiremos a vida deste
monarca, senão depois de se ter apoderado de Portugal em
1530.
Depois
da morte de el-rei D. Sebastião na funesta batalha de Alcácer
Quibir, Filipe pensou na posse do trono português, com as maiores
esperanças, por ver aclamado o cardeal D. Henrique, velho decrépito,
de quem não se podia recear sucessão. Era, porém, preciso antes
da sua morte, assegurar a posse do trono, e para isso empenhou,
todos os meios, intrigas e. dinheiro para ganhar ao seu partido a
corte de Portugal, conseguindo assim. chamar para seu lado muitos
fidalgos portugueses. Os pretendentes, que eram sete, disputavam
entre si a posse do. reino, mas; desses sete, contavam-se cinco que
baseavam as suas pretensões em fundamentos aceitáveis. Estes cinco
eram: Filipe do Espanha, que alegava ser filho de D. Isabel, filha
primogénita de D. Manuel, que casara com Carlos V; o duque de Sabóia
dizia ser filho da infanta D. Beatriz, filha do referido monarca,
que casara com seu pai o duque de Sabóia; D. António, prior: do
Crato, alegava ser filho natural do infante D. Luís, igualmente
filho de el-rei D. Manuel; o duque de Parma, o ser neto, por sua mãe,
do príncipe D. Duarte, filho também de D. Manuel; e a duquesa de
Bragança, D. Catarina, alegava ser filha do mesmo príncipe. Os
dois, que menos direito mostravam, eram Catarina de Medicis, rainha
de França, dizendo-se descendente de D. Afonso III e de sua
primeira mulher, a condessa Matilde de Bolonha, e finalmente o papa,
que se dizia herdeiro natural dos cardeais, e entendia portanto
dever usufruir o reino que um cardeal governava como podia usufruir
uma quinta de que fora possuidor. Os cinco primeiros é que
apresentavam títulos valiosos, e entre esses só três disputavam
seriamente entre si a coroa: Filipe, D. António, prior do Crato, e
a duquesa de Bragança. Cem a morte do cardeal D. Henrique ainda
mais se acendeu a intriga. Cristóvão de Moura, o português
renegado que estava sendo em Portugal o agente infernal do rei de
Espanha, conhecido pelo demónio do meio-dia, enleava tudo
nas redes da sua diplomacia corruptora, espalhando ouro castelhano,
com que comprava as consciências que quisessem vender-se: Filipe II,
em Espanha, seguia com ansiedade a marcha dos acontecimentos, e de lá
dirigia os planos e auxiliava a politica do seu emissário. O reino
ficara, entregue a cinco governadores vendidos a Cristóvão de
Moura, os quais, receando do povo que se agitava; hesitavam em
reconhecer Filipe como rei de Portugal. Vendo isto, o monarca
castelhano dispôs-se a conquistar o reino pela força das armas,
empresa fácil, porque os governadores das praças já eram, na
maior parte, criaturas de Cristóvão de Moura. D. António, prior
do Crato, fizera-se aclamar em Santarém, mas dispunha de poucas
tropas. Apesar disso, Filipe reuniu um poderoso exército, cujo
comando confiou ao general duque de Alba; confiou ao marquês de
Santa Cruz o comando duma esquadra, e conservou-se próximo da
fronteira de Badajoz. O duque de Alba marchou sobre Setúbal;
conquistando facilmente o Alentejo, atravessou para Cascais na
esquadra do marquês de Santa Cruz, marchou sobre Lisboa, derrotou o
prior do Crato na batalha de Alcântara, a 4 de Agosto de 1580,
perseguiu-o até à província do Minho, e preparou enfim o reino
para receber a visita do seu novo soberano. (V. Antonio, D.).
Filipe, em 9
de Dezembro, atravessou a fronteira, entrou em Elvas, onde se
demorou dois meses recebendo nesta sua visita os cumprimentos dos
novos súbditos, sendo um dos primeiros que o veio saudar o duque de
Bragança. A 23 de Fevereiro de 1581 saiu de Elvas, atravessou
triunfante e demoradamente todo o país, e a 16 de Março entrou em
Tomar, para onde convocara cortes, e ali distribuiu as primeiras
recompensas, e ordenou os primeiros suplícios e confiscos, e
recebeu a noticia de que todas as colónias portuguesas haviam
reconhecido a sua soberania, exceptuando a ilha Terceira, onde se
arvorara a bandeira do prior do Crato, que fora ali ,jurado rei de
Portugal a 16 de Abril de 1581. Nessas cortes prometeu Filipe II
respeitar os foros e as isenções de Portugal, e nunca lhe dar para
governador senão um português ou um membro da família real.
Entendendo que devia demorar-se algum tempo no território português,
expediu de Lisboa as tropas que subjugaram, depois de porfiada luta,
a resistência da ilha Terceira, em que D. António fora auxiliado
pela França, e só partiu para Espanha, quando a vitória naval de
Vila Franca, em que o marquês de Santa Cruz destroçou a esquadra
francesa em 26 de Julho de 1582, lhe garantiu a definitiva submissão
da referida ilha. Nomeando para vice-rei de Portugal seu sobrinho, o
cardeal‑arquiduque Alberto, e depois lhe ter agregado um
conselho de governo, e de ter nomeado os membros do conselho de
Portugal, que devia funcionar em Madrid, partiu finalmente a 11 de
Fevereiro de 1583 para Espanha. A 29 de Agosto conquistava o marquês
de Santa Cruz a ilha Terceira. A nova monarquia
hispano‑lusitana era opulentíssima; abrangia na Europa toda a
península ibérica, Nápoles, Sicília, Milão, Sardenha e Bélgica
actual; na Ásia as feitorias portuguesas da Índia, da Pérsia, da
China, da Indochina, e a da Arábia; na África: Angola, Moçambique,
Madeira. Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Canárias, toda a América
menos algumas das Antilhas, parte dos actuais Estados Unidos e o
Canadá, e urnas porções de terrenos na Guiana; na Oceânia tudo o
que então havia conhecido e pertencente aos europeus. Nenhuma outra
nação ali fora ainda assentar domínio. As Molucas eram a parte
mais importante dessas possessões.
A Europa
principiou a assustar-se com este poderio colossal, receosa de que
por este caminho Filipe chegasse a realizar o sonho ambicioso de
monarquia universal. Sucederam se então importantes acontecimentos
políticos, em que a Inglaterra aproveitou para se vingar de Filipe,
de quem se considerava ofendida. As coisas complicaram-se gravemente
porque Isabel, de Inglaterra, mostrou-se disposta a auxiliar as
pretensões do prior do Crato, e o almirante Drake, por ordem
superior, invadiu as colónias espanholas, que eram também as
portuguesas, saqueando Cabo Verde, tomando o castelo do Cabo de S.
Vicente, e apresando quantos galeões americanos cruzavam nos mares
dos Açores. Foi então que Filipe organizou a célebre Armada
Invencível, comandada pelo duque de Medina Sidónia, que uma
tempestade aniquilou por completo, em Junho de 1588. (V. Armada
Invencível). As ambições de Filipe II foram profundamente
ruinosas para as nossas colónias. Em 1589 fechara aos ingleses os
Portos portugueses e em 1591 fechou-os também aos holandeses Daí
resultou que não podendo nem uns nem outros vir buscar a Portugal
os géneros do Oriente, lembraram-se de ir à, fonte desse comércio.
Os holandeses começaram a aparecer no seu tempo no Oriente, onde a
nossa decadência era sensível, e onde depois da perda da nossa
independência só dois capitães ilustres, D. Paulo de Lima Pereira
e André Furtado de Mendonça, tinham mantido nobremente a honra da
bandeira portuguesa. Os ingleses salteavam as nossas possessões
mais próximas, Cabo Verde e os Açores, mas não tardariam também
a aparecer no Oriente favorecendo a natural reacção dos indígenas
contra o nosso domínio.
Em Portugal
houve duas tentativas de revolta, promovidas pela aparição de dois
homens em quem o povo julgou ver D. Sebastião, e que por isso
tiveram a denominação de rei de Penamacor e de rei da Ericeira. O
motim promovido por este último tomou proporções gravíssimas, e
foi reprimido dum modo sanguinário e violentíssimo. Filipe II,
apesar da destruição da Armada Invencível, não desistiu das suas
expedições contra a Inglaterra, e ainda em 1596 enviou urna à
Irlanda que também os temporais dispersaram, perdendo a Espanha
neste desastre 40 navios. Filipe enviuvou pela terceira vez, e casou
novamente com uma segunda prima, Ana de Áustria, que faleceu em
1580, quando estava com seu marido em Badajoz, seguindo o progresso
das armas castelhanas em Portugal, deixando-o pela quarta vez viúvo.
Filipe II teve uma série de primeiros-ministros notáveis: o duque
de Alba, que morreu em Lisboa dois anos depois da conquista; o príncipe
de Eboli que morreu muito antes do rei; António Peres, que lhe
sobreviveu, mas que ele perseguiu implacavelmente; o cardeal de
Granville, que depois de ter perdido todo o valimento, o recuperou e
foi chamado de Nápoles para ficar como regente do reino em Madrid,
enquanto o rei vinha a Portugal; e Cristóvão de Moura, que foi o
valido da última hora, o que recebeu o seu derradeiro suspiro e as
suas derradeiras confidencias. Pouco tempo antes de morrer, o
cardeal-arquiduque Alberto, vice-rei de Portugal, fora nomeado
soberano de Flandres, e para o substituir em Portugal nomeou um
conselho composto do arcebispo de Lisboa, dos condes de Portalegre,
de Sabugal e de Santa Cruz, e de Miguel de Moura. Foi este o último acto importante do
seu reinado.
Com a Universidade de
Coimbra deu-se o seguinte facto, logo no começo do reinado de
Filipe. Em Fevereiro de 1580, pouco depois da morte do cardeal rei
D. Henrique, apresentou-se ao claustro da Universidade o Dr. João
Nogueira, com uma provisão dos governadores do reino, na qual
permitiam a todos os lentes, que não fossem desembargadores, dar o
seu parecer dentro de oito dias, sobre a sucessão do trono. Quis,
porém, a má estrela da Universidade, que D. António, prior do
Crato, lhe escrevesse uma carta, datada de Santarém aos 20 de Junho
do mesmo ano, dando conta de ter sido aclamado rei em diversos
lugares do reino. A Universidade resolveu em claustro que se fizesse
uma procissão, em acção de graças, desde a sua capela até Santa
Cruz; e no mesmo claustro foram eleitos, para irem dar obediência
ao nosso rei, reconhece-lo como tal e fazer-lhe a entrega da
protectoria, o reitor Fernão Moniz Mascarenhas e Fr. Luís
Sotto-mayor. Em 13 de Dezembro voltou o reitor, disse em claustro
que era desnecessário dar conta do desempenho da sua missão, pois
de todos era já sabido que o rei de Castela estava reconhecido como
rei de Portugal. Em vista desta declaração deliberou-se que o próprio
reitor, encarregado havia pouco de cumprimenta o prior do Crato,
fosse agora com os lentes da sua escolha, dar obediência a Filipe
I. Este acto cerimonial realizou-se em Elvas a 20 de Dezembro de
1580, sendo a Universidade representada por D. Jorge de Ataíde e D.
Afonso Castelo Branco. Tornou-se a fazer outra procissão solene,
quando o reitor, em voltando, trouxe carta de el-rei, datada de
Elvas a 25 de Fevereiro de 1581, na qual significava o contentamento
que sentira pela obediência da Universidade, e com o ser declarado
seu protector. Mas Filipe não era homem que deixasse sem castigos
os sentimentos que a Universidade manifestara ao prior do Crato.
Pedro de Alpoim, colegial de S. Pedro e lente do Código, foi
degolado em Lisboa; Fr. Luís de Sotto-mayor privado da cadeira
grande de Escritura; Fr. Agostinho da Trindade, da de Escoto; Fr. Luís
foi depois restituído, mas Fr. Agostinho ausentou-se para França,
e foi lente de Teologia na Universidade de Tolosa; João Rodrigues
de Vasconcelos, que trouxera a carta do prior do Crato, foi preso e
morreu na prisão. Outro facto é também digno de narrar-se; pela
provisão de 9 de Março de 1583 foi Manuel de Quadros nomeado
visitador e reformador da Universidade; tomou posse do cargo e
prestou, juramento a 21 de Março do mesmo ano. O visitador vinha
encarregado de construir escolas para a Universidade, mas os seus
esforços estacaram afinal pela falta de dinheiro. A Universidade
pediu a Filipe I que lhe cedesse os paços reais para neles se
assentarem as escolas, que lá estavam havia já 40 anos. O rei
respondeu, em 30 de Setembro do referido ano de 1583, que, embora
desejasse fazer muitas mercês à Universidade, não era conveniente
a seu serviço dar-lhe os seus paços, que aliás, em sendo
desocupados pela Universidade, tencionava mandar concertar, para
poder em algum tempo ir a eles, como desejava. Filipe nunca realizou
o desejo que disse ter de ir aos paços de Coimbra. Anos depois, em
1597, o mesmo monarca vendeu à Universidade esses mesmos paços por
30 mil cruzados. Neste sentido foi expedido um alvará em 17 de Maio
de 1597, e se fez a carta de venda, em nome de el-rei, a 16 de
Setembro do mesmo ano. No reinado de Filipe I recebeu a Universidade
estatutos por duas vezes, uma em 1592, sendo trazidos de Madrid pelo
Dr. António Vaz Cabaço, resultantes da reformação operada por
Manuel de Quadros; outra, os novos estatutos confirmados em 8 de
Junho de 1597, e trazidos de Madrid pelo Dr. Rui Lopes da
Veiga.
Filipe I, o rei ambicioso e
desumano, que todos esmagava com o seu feroz despotismo, faleceu
coberto de vermes e de úlceras, depois dum doloroso. e demorado
sofrimento.
Transcrito por Manuel Amaral
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