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Passos (Manuel da Silva).
n. 5 de Janeiro de 1801.
f. 16 de Janeiro de 1862.
Um dos vultos mais proeminentes das lutas liberais;
bacharel formado em Leis pela Universidade de Coimbra; advogado,
deputado em diversas legislaturas, par do reino, ministro de Estado,
etc. N. na freguesia de S. Martinho, de Guifões, concelho de Bouças,
distrito do Porto, a 5 de Janeiro de 1801, fal. em Santarém a 16 de
Janeiro de 1862. Era irmão mais novo de José da Silva Passos (V.o artigo antecedente).
Ambos os irmãos começaram desde
muito novos a manifestar uma inteligência notável, e seus pais,
lavradores pouco abastados, reconhecendo que o melhor legado que
poderiam deixar-lhes, era a instrução, empregaram todos os possíveis
esforços para que recebessem uma boa educação literária. Depois
de frequentarem os estudos menores, como então se dizia, os dois
irmãos foram para a Universidade. de Coimbra, e matricularam se em
1817, destinando-se Manuel Passos à faculdade de Leis. Muitos
portugueses andavam influenciados pelas ideias republicanas que se
haviam desenvolvido na França, e Portugal sofrendo também terríveis
consequências dessas ideias, havia suportado três invasões, e,
visto com desgosto o abandono da família real, que se refugiara no
Brasil, apenas se dera a primeira invasão. Manuel Passos, e José
Passos, mais velho do que ele e companheiro inseparável das suas
fadigas e infortúnios, preocupados com o estudo, estimulados nos
brios pela honrosa competência das lides intelectuais, cursavam as
aulas, quando a revolução de 1820 os veio surpreender,
abrasando-lhes o entusiasmo, e despertando-os para a realidade dumas
ideias liberais tão conhecidas nos seus sonhos de imaginação
ardente e exaltada. Manuel Passos prosseguia o curso com tanta
distinção, que recebia um prémio pecuniário de 40$000 reis,
vindo a formar-se em 1822.
Com o entusiasmo pelas ideias liberais,
fundou em Coimbra em 1823, com seu irmão, o jornal Amigo do
Povo, que pouco depois acabou por ter triunfado a reacção
nesse mesmo ano de 1823. Manuel Passos foi então para o Porto, e
matriculou-se como advogado de número da Relação e Casa do Porto,
exercendo a advocacia, e entregando-se aos seus estudos literários
predilectos, até que em 1828, tendo tomado parte na insurreição
de 16 de Maio tentada contra o governo de D. Miguel, depois do golpe
de Estado que este dera em Lisboa restabelecendo a monarquia
absoluta, viu-se obrigado a emigrar nesse mesmo ano com seu irmão e
outros para a Corunha, partindo dali para Plymouth, onde estava a 26
de Setembro de 1828, porque é essa a data dum soneto escrito por
ele com o pseudónimo de Almeno Damoeta, e por ele dirigido à
rainha D. Maria lI. Algum tempo se demorou em Inglaterra, seguindo
depois para a Bélgica, e daí para França. Foi aqui que se
relacionou, parece que intimamente, com Saldanha, a quem dirigiu um
soneto laudatório com o referido pseudónimo, e em Paris publicou
dois Memoriaes sobre o estado do país e sobre a necessidade
de destruir o governo de D. Miguel e de restabelecer o trono da
rainha D. Maria II, um opúsculo intitulado Breve razoamento a
favor da liberdade lusitana e um Exame de algumas opiniões e
doutrinas de Filipe Ferreira de Araújo e Castro e de Silvestre
Pinheiro Ferreira. Todos estes opúsculos começaram a dar uma certa
notoriedade ao seu nome; mas uma pendência grave que se levantou
entre o ministro da guerra liberal Cândido José Xavier e o coronel
Rodrigo Pizarro, deu origem a que os dois irmãos Passos emitissem a
sua opinião sobre o assunto num opúsculo impresso em Paris em
1832, e intitulado Parecer de dois advogados da casa do Porto, etc.
Também os dois irmãos, reunidos em Paris, e nesse mesmo anuo,
publicaram em português e francês uma resposta a umas acusações
formuladas pelo Times contra o duque de Saldanha. Tudo isto
foi dando aos dois irmãos reputação e prestígio. Segundo as
melhores informações, Manuel da Silva Passos, regressou ao Porto.,
quando já estava restabelecido o regime constitucional, e logo em
1834, nas primeiras cortes de deputados que se constituiriam, foi
eleito por uma das divisões eleitorais do norte. Parecia talhada
para o seu talento parlamentar a questão da Regência, que então
surgia cravada de dificuldades e cercada de perigos. D. Pedro havia
a assumido ditatorialmente, e Manuel Passos entendia que, segundo a
Carta Constitucional, não a podia ele exercer. Logo nas primeiras
palavras que pronunciou, se reconheceu que estava ali um orador
admirável com todo o fogo da palavra tribunícia, e ao mesmo tempo
com toda a urbanidade da palavra académica; tratava com toda a
consideração e respeito o homem que prestara tão relevantes serviços
à causa da Liberdade, mas punha acima de todas as considerações o
respeito da lei: Um bom principio, dizia ele, vale mais do
que um homem, e foi essa a norma constante da sua austera vida
politica. Manuel Passos, ou Passos Manuel, como então lhe começaram
a chamar para o distinguirem de seu irmão José Passos, começou
desde logo a inspirar vivas simpatias aos próprios inimigos, e
ardente entusiasmo aos correligionários. Numa outra questão
levantou Manuel Passos a sua voz no mesmo dia em que se estreava um
outro orador notável, que tinha de ser muitas vezes seu adversário
político, mas sempre amigo pessoal, Rodrigo da Fonseca Magalhães.
Nunca Manuel Passos subira tão alto como nesse pleito da lei
de indemnizações, que se pretendia arrancar aos bens dos vencidos
o necessário para indemnizar as vítimas do regime anterior. Era
mentir ás tradições generosas do partido liberal, era arrolar
para satisfazer vindictas e caprichos de momento, os grandes princípios
do novo regime. Manuel Passos protestou energicamente contra esse
facto, e foi verdadeiramente eloquente. Nessa primeira câmara de
1834, fazendo sempre oposição ao ministério conhecido pelo nome
de ministério dos devoristas, e aos que se lhe seguiram, e
que trilharam um pouco a mesma senda, Manuel Passos granjeou uma
grande reputação de orador; de todos os homens novos postos em
evidência pela eleição de 1834, era ele quem se mostrava mais
conhecedor dos negócios, o parlamentar mais brilhante, o democrata
mais ardente, sem perder as suas grandes qualidades de urbanidade e
cortesia. Entretanto sucediam-se os ministérios uns aos outros, e
sem estabilidade nem firmeza, praticavam erros sobre erros. O
primeiro ministério da rainha, presidido pelo duque de Palmela, caíra
diante das acusações da opinião, e fora substituído primeiro
pelo ministério de transição do conde de Linhares, e afinal pelo
ministério Saldanha, que caiu principalmente em consequência do
descontentamento produzido pela expedição de Espanha. Sucedeu-lhe
o ministério José Jorge Loureiro, que caiu em consequência da
atitude indecisa que adoptou na questão da nomeação do rei D.
Fernando para comandante em chefe do exército. Foi o ministério
seguinte, presidido pelo duque da Terceira, que resolveu a questão nomeando D. Fernando para o
lugar de que se tratava. Este acto, porém, e outros do ministério,
levantaram grande agitação entre os membros do partido avançado,
que tomou em todo o reino uma atitude decidida. Em Lisboa, o Clube
dos Camilos, assim chamado por celebrar as suas sessões no antigo
convento dos Camilos, tocava as raias da demagogia exaltada. O
ministério que tinha pouca confiança nas câmaras, dissolveu-as, e
isso ainda mais exacerbou o país. Contudo, as eleições foram
favoráveis ao governo em toda a parte, excepto em dois distritos, o
do Porto e o de Viseu. As novas câmaras tinham sido convocadas para
5 de Agosto, o governo adiou-as para 11 de Setembro. No dia 9 deste
mes desembarcaram em Lisboa os deputados vindos do Porto. Recebidos
com o mais vivo entusiasmo, a ovação que se lhes fez, tomou o carácter
duma manifestação politica. Nesse mesmo dia a guarda nacional
pegou em armas, capitaneada por Fernando Soares Caldeira, e
proclamou a constituição de 1822 com as modificações que as
cortes lhe introduzissem. As tropas de linha, enviadas para sufocar
este movimento, fraternizaram com a guarda nacional. Com este
movimento estava feita a revolução popular de 9 de Setembro de
1836, conhecida pelo nome de revolução de Setembro. A
rainha, obrigada a ceder a um movimento que não pudera reprimir,
chamou em 10 de Setembro aos seus conselhos os homens que
representavam a opinião predominante. Esses homens, presididos pelo
conde de Linhares, que também ficou com a pasta da guerra, foram:
Vieira de Castro, ministro da justiça; visconde de Sá da
Bandeira, da fazenda e interino dos estrangeiros; Vasconcelos
Correia, da marinha; e Passos Manuel, do reino. Este ministério
tinha forçosamente de assumir a ditadura. Assumiu-a tratando ao
mesmo tempo de convocar imediatamente cortes constituintes. Passos
Manuel, como ministro do reino, começou logo a tratar da instrução
pública. Pelo decreto de 18 de Novembro de 1836, criou em Lisboa um
depósito geral de máquinas, modelos, utensílios, desenhos, descrições,
e livros relativos ás diferentes artes e ofícios, com a denominação
de Conservatório das Artes e Ofícios, e com o fim principal
de promover a instrução prática em todos os processos industriais
por meio da imitação. Por decreto de 5 de Janeiro de 1837 foi
criado no Porto um deposito geral com a designação de Conservatório
Portuense de Artes e Ofícios, com o mesmo fim, método de
organização, administração e regulamento que o de Lisboa. Foi
também Passos Manuel quem fundou a Academia de Belas Artes; foi ele
quem referendou os três decretos de 25 de Outubro de 1836, todos
relativos à Academia. O 1.º daqueles decretos teve por fim criar a
Academia; o 2.º, colocá-la numa parte do edifício do extinto
convento de S. Francisco da Cidade, onde ainda hoje existe, e criou
uma biblioteca especial de Belas artes no mesmo edifício; o
3.º nomeou para os. diversos empregos da academia as pessoas
constantes duma relação que acompanhava o mesmo decreto A academia
ficava sob a protecção imediata da rainha D. Maria II e do rei
D. Fernando. Nesse mesmo ano de 1836, também por iniciativa do
distinto ministro do reino, se criou a Casa Pia, de Évora, por
decreto de 27 de Outubro. Por decreto de 12 de Janeiro de 1837,
referendado pelos ministros Passos Manuel e visconde de Sá da
Bandeira, foi criada uma Casa Pia, com a denominação de Asilo
Rural Militar, destinada exclusivamente para recolher,
alimentar, e educar 80 alunos, filhos de praças de pré do exército.
O asilo ficaria assente no edifício do extinto convento do Varatojo,
aplicando-se-lhe também a respectiva cerca, e uma porção de
terreno não muito distante do estabelecimento. Em 28 de Setembro de
1836, Manuel da Silva Passos encarregou Almeida Garrett de elaborar
e propor ao governo um plano para a fundação e organização do
Teatro Nacional de Lisboa, devendo ao mesmo tempo informar
acerca das providencias necessárias para efectuar melhoramentos
possíveis nos teatros existentes. Do plano elaborado por Almeida
Garrett resultou o decreto de 15 de Novembro criando a Inspecção-geral
de teatros, e simultaneamente estabelecendo um Conservatório
Geral da. Arte Dramática. Por decreto de 29 de Dezembro de 1836
deu uma nova e radical organização ás escolas de cirurgia de
Lisboa e Porto, dando-lhes a denominação de escolas médico-cirúrgicas
de Lisboa e Porto. Também na fecundíssima ditadura de Passos
Manuel, se fundou em Janeiro de 1837 a Academia Politécnica do
Porto em substituição da antiga Academia Real de Marinha;
transformou os estudos da Universidade, formou um novo plano para as
escolas de instrução primária, recomendou a criação de associações
agrícolas, fabris e industrias nas terras mais importantes do
reino. Este ministério estava no poder havia apenas dois meses
quando rebentou o movimento da Belenzada (V. Portugal, vol.
II, pag. 263 e seguintes) A rainha retirou-se para Belém, demitiu o
ministério, organizou outro gabinete, e fez proclamar nos arredores
do Paço a restauração da Carta Constitucional. Conhecedor do que
se passava, Passos Manuel tratou logo de ver quais eram os
sentimentos da guarda nacional, e achou-a pronta a acompanhá-lo. A
tropa de linha; que estava em Lisboa, mantivera-se fiel também ao
ministério; Manuel Passos e os seus amigos não aceitaram as suas
demissões. Em presença desta atitude, a rainha desanimou, voltou
para Lisboa, e continuou a funcionar o regime estabelecido. Não
fora essa a primeira tentativa de reacção contra o ministério
setembrista. Logo no dia 18 de Setembro tinham protestado contra a
revolução 27 membros da câmara alta. No dia 5 de Outubro constava
ao novo governo que o batalhão de caçadores n.º 5
queria fazer a contra-revolução, o batalhão foi mandado para o
Algarve combater o Remexido, e como o chefe cartista Gomes parecia
operar de acordo com o guerrilheiro português, e podia por
conseguinte a sua união acarretar sérios perigos, após caçadores
n.º 5 marchou para o sul do rio Tejo uma divisão
comandada pelo barão de Bonfim. O movimento da Belenzada malogrou-se,
além de muitas outras causas, pela intervenção dos marinheiros
ingleses que desembarcaram, diziam eles, com o fim de proteger a
rainha, o que irritou profundamente os próprios cartistas. Foi
Manuel Passos quem primeiro protestou, e com toda a energia, contra
a intervenção inglesa, mais ou menos disfarçada. Estava detido em
Belém, onde a rainha
o mandara chamar. Esse simulacro de contra revolução durou
pouco tempo. A 5 de Novembro a rainha nomeava presidente do conselho
de ministros o visconde de Sá da Bandeira, que ceamos logo para seu
lado Vieira de Castro e Passos Manuel. Até 1 de Junho do 1837 se
dilatou esta situação, em que Manuel Passos tinha a seu cargo, ora
alternada, ora simultaneamente, as pastas do reino, da fazenda e da
justiça. Além das grandes medidas já citadas, Passos Manuel
resolveu, refundir, mais ainda, criou o nosso sistema tributário.
Deu ás alfandegas do reino a pauta de 10 de Janeiro de 1837, da
qual procedem todas as que depois dela tem sido decretadas, e
libertou assim para uma vida nova o comércio, que estava ainda
sujeito à pauta aduaneira de 14 de Fevereiro de 1782. Em 31 de
Dezembro de 1836 promulgou um Código administrativo, em que também
colaborou seu irmão José; nesse trabalho havia excelentes disposições.
Tratou também o notável ministro de providenciar com relação ao
modo de facilitar aos devedores à fazenda o pagamento dos seus débitos
sem prejuízo do tesouro, e a respeito da exportação dos vinhos do
Douro, da redução de tenças e de pensões, da extinção do papel
moeda. Alguns dos relatórios que precedem estes decretos são
verdadeiras obras-primas. As cortes constituintes, convocadas no dia
12 de Outubro de 1836, só vieram a reunir-se no dia 18 de
Janeiro de 1837. As reformas de Passos Manuel, reformas a que se
deve acrescentar outra importantíssima, a criação do registo
hipotecário, tinham levantado muitos atritos. O ministério contava
agora um grande número de inimigos, até nas fileiras dos avançados.
Foi um deles José Estêvão, que se estreou na tribuna, combatendo
o ministério de 5 de Novembro. Todos consideravam perfeitamente
transitórias e efémeras as reformas de Passos Manuel, muitas das
quais ainda se têm conservado, atestando pelos seus imensos
resultados a sensatez do legislador; Passo Manuel, porém, já
estava cansado das intrigas miseráveis da política, e aproveitou o
primeiro ensejo que teve para sair do ministério. A 5 de Abril começara
a discutir-se a Constituição; em Maio discutia-se a criação dos
lugares de secretários de Estado, proposta. por Passos Manuel, e
rejeitada pela câmara. Era o dia 10 de Maio de 1837; nesse mesmo
dia Passos Manuel e os seus amigos pediram a demissão, e nunca mais
esse estadista voltou a ocupar as cadeiras do poder. Recolhendo-se
à vida privada, acompanhou lealmente os seus amigos, sem despertar
a cólera dos inimigos.
A Constituição acabou de se discutir e
promulgou-se, e Passos Manuel foi eleito senador. Na câmara alta
pronunciou alguns discursos muito notáveis, mas persistiu em se
abster de entrar na parte verdadeiramente política dos debates.
Depois da contra-revolução do Porto, em 1842, que deu em resultado
o restabelecimento da Carta Constitucional; e sendo extinta a câmara
dos senadores, Passos Manuel foi reeleito deputado, e assentou-se
nos bancos da oposição. No entretanto, poucas vezes apareceu na câmara,
e poucas vezes também usou da palavra. Estava completamente
entregue ás suas ocupações agrícolas; tornara-se lavrador no
Ribatejo, e entregava-se com entusiasmo aos cuidados da lavoura. O
seu nome adquirira por isso mesmo um extraordinário prestígio.
Esse homem que atravessara o poder sem se demorar, e que deixara,
contudo, um rasto brilhantíssimo da sua passagem; que servira
sempre desinteressadamente o seu pais, que dele não recebera nem
honras, nem empregos, nem benefícios, que se mostrara sempre
liberal sincero, patriota ardente, que ligara o seu nome à ditadura
mais brilhante da história portuguesa, a uma série de fundações
notáveis, e que nunca entrara nas lutas mesquinhas da politica, que
nunca se metera nas suas intrigas, que tivera o mais constante e o
mais nobre desprendimento, a mais nobre altivez de animo, que falara
alto aos reis nos seus paços, e quando eles tinham por si a força
e a vontade de a empregar, que nunca lisonjeara baixamente o povo,
que fora levantado ao poder por uma revolução que ele não
provocara, e que o levantara nos escudos como ao mais digno, cuja
palavra se levantara sempre a favor das causas sagradas da liberdade
e da tolerância, e que depois de tudo isso fora entregar-se
tranquilamente aos modestos trabalhos da agricultura, adquirira no
país um prestigio verdadeiramente extraordinário.
Em 1844, quando
se malogrou a revolta de Torres Novas, que foi morrer em Almeirim,
Passos Manuel ergueu a voz para protestar contra a repressão
violenta a que recorrera o partido vencedor e contra as vinganças a
que se deixara arrastar. Nesse discurso há frases imortais, que
deviam ainda hoje ser meditadas por todos que lidam na política.
Infelizmente, Passos Manuel voltou ao seu silêncio habitual e à
sua vida de lavrador. As eleições de 1845, tristemente célebres,
irritaram profundamente o país, já fatigado do governo opressor do
conde de Tomar, e na primavera de 1846 rebentou a revolução do Minho,
conhecida pela Maria da Fonte. A rainha sentiu que a situação
era grave e demitiu o ministério que assim sublevara a opinião. Já
a esse tempo se organizavam por toda a parte juntas incumbidas de
auxiliar o movimento do norte, Os descontentes do distrito de Santarém
agruparam-se em torno do simpático vulto de Passos Manuel. Não
podia este, nem queria entrar no ministério. Mousinho de
Albuquerque, ministro do reino, pediu-lhe para aceitar o cargo de
governador civil de Santarém, cargo que podia exercer, quase sem
sair de casa. Passo Manuel aceitou. Ao mesmo tempo era proposto
deputado pelo Porto, mas nem chegou a ser eleito, nem pôde ser por
muito tempo governador civil, porque a 6 de Outubro dava a rainha o
golpe de Estado celebre dessa data, a notícia transmitida para o
Porto fazia com que rebentasse a revolução, cuja alma foi desde
logo José Passos, o irmão enérgico de Passos Manuel. Parecia
natural que a Passos Manuel pertencesse a direcção suprema, ele,
porém, não desejava senão viver obscuro. Esteve sempre durante a
revolução ao lado da Junta do Porto, combatendo, porém, como
voluntário, sem ambições de poder nem de brilho. Auxiliou muito a
Junta, e quando esta ficou definitivamente vencida, voltou à
tranquilidade do seu viver doméstico. Depois da convenção de
Gramido, em 1847, não voltou, nem tentou voltar à câmara. Dando
se o movimento da Regeneração, em 1851, tornou a ser eleito
deputado, sendo reeleito em outras legislaturas até 1858, mas
poucas vezes tomou a palavra, e em muitas sessões não compareceu
por falta de saúde. Por carta régia de 17 de Maio de 1861 foi
eleito par do reino, mas não chegou a tomar assento na câmara
alta. No anuo seguinte falecia em Santarém, causando a sua morte a
mais profunda consternação. Quando a noticia foi sabida em Lisboa,
a câmara dos deputados, que estava reunida, lançou na acta um voto
de sentimento pela morte do grande liberal, e por proposta de Mendes
Leal, determinou que na sala da biblioteca da câmara, fundada pelo
eminente tribuno, se colocasse o seu busto. Anos depois, os seus
patrícios do concelho de Bouças lhe erigiram uma estátua na
alameda de Leça. Manuel da Silva Passos havia
casado a 28 de Dezembro de 1838 com D. Gervásia de Sousa Falcão,
filha de João de Sousa Falcão, e de sua mulher D. Maria Xavier
Farinha Falcão. Deste consórcio houve duas filhas: D. Beatriz de
Passos Manuel, que teve o titulo de viscondessa de Passos, em atenção
aos serviços de seu pai; e D.
Antónia de Passos Manuel, que casou com Pedro de Sousa
Canavarro, neto do 1.º barão de Arcossô. Bibliografia: Memorial
sobre a necessidade e meios de destruir promptamente o tyranno
de Portugal, e restabelecer o throno de sua majestade à senhora D.
Maria II e a Carta de 1826, Paris, 1831; Segundo memorial
sobre o estado presente de Portugal, e como não ha razão, nem
direito, nem força para tirar à senhora D. Maria II a sua coroa, e
a nós a nossa liberdade, Paris, 1831; Breve razoamento a
favor da liberdade lusitana, e da senhora D. Maria II, duqueza do
Porto, e rainha constitucional dos portuguezes, Paris, 1842; Exame
de algumas aptidões e doutrinas, que os senhores Filippe Ferreira
de Araujo e Castro, e Silvestre Pinheiro Ferreira expendem em seu «Parecer,
Notas e Analyse das observações do sr. José Ferreira Borges», Paris,
1832; Parecer de dois advogados da Casa do Porto: 1.º sobre a
carta particular que o sr. Candido José Xavier dirigiu ao sr.
Rodrigo Pinto Pizarro; 2.º sobre a communicação que S. M. E o sr.
D. Pedro de Bragança fez ao general Conde de Saldanha, etc.,
Paris, 1832; Resposta aos artigos publicados no "Times"
contra o ex.mo sr. general Conde de Saldanha, e que suppomos
serem obra d'um olheiro chamorro bem conhecido, 1832; este
mesmo opúsculo saiu mais extensamente desenvolvido em francês, com
o título: Réponse aux accusations publiées derníérement dans
le "Times" contre le général Comte de Saldanha; dediée
á ses amis personnels et politiques par les citoyens portugais
Joseph et Manuel da Silva Passos, Paris, 1832; Relatorio
apresentado ás Cortes extraordinarias e constituintes, pelo
ministro secretario de Estado dos Negocios do Reino, etc.,
Lisboa, 1837; Discurso do sr. Passos (Manuel) pronunciado na sessão
de 16 de julho de 1841, na Camara dos Senadores, Porto, 1841;
versa sobre o requerimento dum estrangeiro, que pedia uma pensão
ao parlamento em remuneração de serviços feitos a causa
constitucional; Discurso do sr. Passos (Manuel) sobre as contribuições
municipaes, Porto, 1841; Discurso do sr. Passos (Manuel)
pronunciado na sessão de 13 de fevereiro de 1840, Porto, 1840;
teve por assunto a questão do tráfico da escravatura, na discussão
da resposta ao discurso da Coroa; Discurso do sr. deputado Passos
(Manuel) na sessão de 18 de outubro de 1844, Lisboa, 1845;
sobre o uso e abuso dos poderes ditatoriais de que o governo se
revestira, por ocasião da sublevação de Torres Novas em Fevereiro
do mesmo ano.
Transcrito por Manuel Amaral
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