|
Henrique
(D.). O Navegador.
n.
4 de Março de 1394.
f. 13 de Novembro de 1460.
Infante
de Portugal, 5.º filho d'el-rei D. João I, e da rainha
sua mulher, D. Filipa de Lencastre; grão-mestre da ordem de
Cristo, duque de Viseu, fronteiro-mor de Leiria, cavaleiro da
ordem da Jarreteira, de Inglaterra, senhor da Covilhã, de Lagos e
de Sagres, do Algarve, de cujo reino foi governador perpetuo. N.
no Porto a 4 de Março de 1394, fal. em Sagres a 13 de Novembro de
1460.
Dedicou-se
muito ao estudo das Matemáticas, e em especial ao da Cosmografia,
quando estas ciências apenas começavam a ser conhecidas na
Europa, e que ele fez cultivar em Portugal. Foi devido a esses
estudos, ás meditadas informações que alcançou de seu irmão
D. Pedro, que viajara na Europa e na Ásia, e à leitura dos
escritores antigos, que no seu espírito se formou a certeza de
que ao norte do Senegal, então considerado braço do Nilo,
existiam povos hereges, que comerciavam entre si. Levar a luz
cristã ao espírito desses povos e colher fruto do seu comércio,
foi o grandioso plano do infante.
Contava apenas 21 anos de idade
quando D. João I determinou armá-lo cavaleiro e aos seus dois
irmãos D. Duarte e D. Pedro, com as festas publicas de grande
solenidade, segundo o costume daqueles tempos. Mas o infante D.
Henrique desejava antes receber as armas em verdadeira guerra,
para onde o arrastava a sua inclinação e valor. O monarca
louvou-o muito, e quando se pensou na tomada de Ceuta, a maior e a
mais fortalecida praça de toda a Mauritânia, os três infantes
tomaram parte, distinguindo-se na renhida batalha realizada em 21
de Agosto de 1415, sendo e infante D. Henrique quem ainda mais se
distinguiu. Foi o comandante da frota do Porto, e o primeiro que
saltou em terra. No dia 25 do referido mes de Agosto seu pai o
armou cavaleiro da ordem de Cristo. D. João I saiu de Ceuta com a
armada em 2 de Setembro seguinte, e pouco dias depois ancorou em
Tavira, no meio das jubilosas aclamações do povo. Reunindo ali
os seus filhos, declarou querer remunerar-lhes o grande serviço
que tinham prestado. Ao príncipe D. Duarte, como herdeiro da
Coroa, nada podia oferecer que fosse de maior valor; mas a D.
Pedro conferiu-lhe o título de duque de Coimbra, e o senhorio de
Montemor-o-Velho, Aveiro e outras terras que daí em diante, por
constituírem o apanágio da sua categoria, passaram a
denominar-se do Infantado; o infante D. Henrique foi feito duque
de Viseu e senhor da Covilhã. O título de duque era então
desconhecido em Portugal. Foi a conquista de Ceuta que vem ainda
mais fixar os vagos desejos do infante D. Henrique de desvendar os
mistérios do oceano. Portugal, efectivamente, formava nessa época,
para o ocidente o extremo do mundo conhecido. O mar para o ocidente
e para o sul era a região dos profundos misteriosos, povoado de
terrores e de visões fantásticas. Foi na expedição de Ceuta, em
que ele apenas viu primeiro como seus irmãos o ensejo de praticar
brilhantes feitos de armas, e de conquistar dignamente as suas
esporas de cavaleiro, que não tardou a achar também estímulo para
empresa de maior alcance. Ceuta era um empório do comércio entre a
Ásia, a Africa e a Europa. Além de todas as razões que já tinha
para tentar estas novas aventuras, não deixou também de actuar no
seu espírito a razão comercial. Como de costume foi o infante D.
Pedro o confidente das intenções de seu irmão, e não se esqueceu
de auxiliá-las. Em 1416 saiu do reino para viajar, e quando
regressou em 1428, trouxe-lhe um tesouro precioso, o livro
manuscrito das viagens de Marco Pólo com que o presenteara a
senhoria de Veneza. O infante D. Henrique, em 1416 ou 1419, fundou
uma vila no promontório de Sagres, para onde foi viver; começou a
encarar as ondas do Oceano Atlântico, e a pensar na forma de
intentar por elas as suas expedições descobridoras. Chamou do
estrangeiro um cosmógrafo celebre, Jaime de Maiorga, e auxiliado
por ele, entregou-se com fervor ao estudo. A vila ficou conhecida
por Vila do Infante, e actualmente tem o nome de Sagres. D.
Henrique estabeleceu ali uma escola de cosmografia e de navegação
que foi frequentada pelos cavaleiros da sua casa, e
por outros homens que se entusiasmavam pelas suas empresas. Ainda
que não tivessem a forma regular dum curso aqueles estudos, contudo
a conversação do infante, de Jaime de Maiorga, e de outros homens
célebres que se agrupavam em redor do filho de D. João I, seria
altamente instrutiva para os cavaleiros que os escutavam, e foram os
mesmos que depois guiaram as caravelas de D. Henrique nos seus
empreendimentos. Na vila, também o infante estabeleceu estaleiros e
oficinas de construção naval, e erigiu o primeiro observatório
astronómico que existiu em Portugal. Dentro da povoação havia uma
capela dedicada a N. Sr.ª da Conceição, e fora a igreja de Santa
Catarina, acima do porto onde desembarcavam os que vinham nos
navios, e para que os
mareantes que ali morressem, fossem enterrados no cemitério
dela.
Estavam pois
reunidos todos os, elementos precisos para se levar a efeito a
empresa intentada pelo infante. Recursos não lhe faltavam; como grão-mestre
da ordem de Cristo, podia aplicar os imensos rendimentos dessa
cavalaria religiosa a expedições em que tanto lucrava a propagação
da fé cristã. Armado com as informações que obtivera em Ceuta,
decidiu-se a mandar todos os anos alguns navios tentar explorações
para o sul. Começou então a série de descobrimentos, que deviam
levar o pendão das quinas aos confins da terra, e imortalizar a memória
do infante D. Henrique. Em 1418 Bartolomeu Perestrelo descobriu a
ilha do Porto Santo, cuja capitania lhe foi confiada com permissão
de el-rei; e João Gonçalves Zarco acompanhado de Tristão Vaz
Teixeira encontrou a Madeira; estas ilhas, contudo, e a dos Açores,
está provada já serem conhecidas, tendo sido descobertas no tempo
de D. Afonso IV. Quando os navegadores voltaram ao reino trazendo
notícias maravilhosas do que tinham visto. D: João I e o infante
rejubilaram; este por ter conseguido o fim a que aspirava, aquele
pela glória e proveito que destes descobrimentos provinham para o
país, ilustrando o seu reinado. D. Henrique, porém, não se
limitou a dirigir as navegações, procurou colonizar as ilhas que
se iam descobrindo. A Madeira, principalmente, mereceu‑Ihe os
maiores desvelos. Anos depois, em 1432, Gonçalo Velho Cabral,
comendador de Almurol, encontrou as ilhas dos Açores. No
entretanto, não eram as ilhas do Atlântico que cativavam os
cuidados do infante; o que mais o preocupava era esse mar tenebroso,
que os mareantes da Idade Média julgavam impossível de transpor.
Passar além do cabo Bojador, julgava-se impossível. Vinte
tentativas se haviam feito para dobrar o cabo, mas os navegantes
sempre recuavam por terror supersticioso. Finalmente, D. Henrique
armou uma barcha, cuja
capitania confiou a Gil Eanes, seu escudeiro, que partiu cm 1433
cheio de terror, e voltou sem nada ter adiantado. Aportando às Canárias,
retrocedeu com uns cativos, convencido de que ir além, era empresa
que Deus puniria com severidade. Instado pelo infante, tornou a
embarcar em 1434, e vencendo o terror, teve a fortuna de dobrar o
cabo fatídico. (V. Eanes, Gil). Este facto ficou registado como a data mais memorável
da história das nossas descobertas. As navegações continuaram,
recomendando sempre o infante aos navegantes nas suas instruções,
que estudassem minuciosamente as costas que percorriam, colhessem o
maior número possível de informações, e sobretudo não deixassem
de procurar saber onde vivia o famoso Prestes João das Índias. Em
1436 Afonso Gonçalves Baldaia, copeiro de D. Henrique, percorrendo
a costa ao sul do Bojador, descobriu o Rio do Ouro, e desembocando
na Angra dos Cavalos, continuou navegando para o sul, e chegou à
Pedra da Galé. Distraiu-o desta ocupação, que foi a sua glória,
a infeliz empresa de Tânger, em que ele foi com seu irmão, o
infante D. Fernando, que por ser ainda muito criança não pudera
acompanhar el-rei seu pai e seus irmãos na tomada de Ceuta. Obtida
a licença de el-rei D. Duarte, partiram ambos os irmãos a 22 de
Agosto de 1437 para Tânger, com uma esquadra e um exército bem
pouco proporcionado à grandeza da empresa que iam tentar. Foi uma
fatalidade, de que resultou o cativeiro e morte do infante D.
Fernando, que ficou conhecido pelo cognome de infante santo (V.
Fernando, D.) Regressando a Portugal, por ordem do monarca seu
irmão, D. Henrique continuou com os descobrimentos. Em 1441 Nuno
Tristão descobriu o Cabo Branco, em 1443 a ilha de Arguim, onde se
estabeleceu uma feitoria, e em 1445 visitou a costa da Senegâmbia,
chegando até Palmar. A seguir, Diniz Dias dobra o Cabo Verde; João
Fernandes, em 1445, que sendo cativo em Mauritânia, aprendera o árabe,
penetra no interior do Sudão e chega ao país dos Tuaregues, sendo
o primeiro europeu que explorou o interior do continente negro até
Taguor; no ano seguinte, 1446, Álvaro Fernandes descobre a Serra
Leoa, e reconhece a ilha de Gorea; em 1457 o veneziano Luís de
Cadamosto e o genovês António Nola, ambos ao serviço do infante,
descobriram a Gambia; em 1460 Diogo Gomes descobriu o arquipélago
de Cabo Verde, que Cadamosto pretendia haver descoberto, e que mais
tarde se provou não ser verdade, pela relação do próprio Diogo
Gomes publicada em 1847 pelo Dr. Schmelles, de Munique.
A fama de D.
Henrique chegara às nações estrangeiras e muitos homens ávidos
de aventuras, vinham pedir-lhe emprego nas suas caravelas. Devotado
apaixonadamente às ciências cosmográficas, D. Henrique foi o
maior matemático do seu tempo; aplicou utilmente o astrolábio à
navegação, e inventou as cartas planas. Quando se reformou a
Universidade, em 1431, estando em Lisboa, fez-lhe doação por
escritura da 12 de Outubro, dumas casas que comprara na freguesia de
S. Tomé, para nelas se lerem as ciências que eram então
aprovadas, e teve o cuidado de distribuir ordenadamente as diversas
salas para os diversos exercícios escolares. Em 25 de Março de
1448 fez mercê à mesma Universidade de 12 marcos de prata, anuais,
e consignados nos dízimos da ilha da Madeira, para salário da
cadeira de prima de teologia. Esta mercê foi confirmada por carta
de 12 de Setembro de 1460, pelo que se lhe deu o título de Protector
dos Estudos em Portugal. O infante D. Henrique deixou um nome
glorioso, e à, sua pátria uma herança sublime. Foi o vulto mais
brilhante da história da Idade Média, o homem que deve simbolizar
para a história a glória dos descobrimentos.
Apesar de não
ter nunca sulcado as ondas do Oceano; senão para as suas expedições
de conquista africana, teve o cognome de Navegador, e na verdade bem merecido, porque a ele se deve o
primeiro impulso e o grande incitamento das grandes navegações,
que tanto contribuíram para o progresso da civilização, que
ampliaram tanto o conhecimento do mundo. Faleceu em Sagres, conforme
dissemos, no estado de solteiro. Seu corpo foi primeiramente
depositado na igreja de Lagos, sendo dali trasladado para o convento
da Batalha em 1461, pelo infante D. Fernando, seu sobrinho, filho de
el-rei Duarte, a quem pouco tempo antes havia constituído herdeiro
e adoptara como filho. D. Fernando veio a casar com sua prima D.
Beatriz, filha do infante D. João, e foi o pai de D. Diogo, duque
de Viseu, e de D. Manuel, duque de Beja, e rei de Portugal (V. Beja, duques de). Sobre o túmulo vê-se a sua estátua de pedra,
que em relevo o representa ao natural, vestido de armas brancas. e
coroado de coroa real entretecida de folhas de carvalho, e uma rosa
no meio; tem nela três escudos: o primeiro com as armas do reino de
Portugal e as suas, e nos outros dois as insígnias das duas ordens
que professara, de Cristo e da Jarreteira. Foram sua divisa uns
ramos pequenos, e curtos como de carrasco com seus frutos pendentes,
e por mote em língua francesa as palavras: Talent de bien faire.
Esta divisa também se vê no túmulo, tendo por baixo numa só
linha, em todo o comprimento do túmulo, um epitáfio em letra alemã.
El-rei D. Manuel lhe mandou colocar também seu retrato na estátua
de mármore sobre a coluna, que divide a porta travessa da igreja de
Belém, como fundador da antiga ermida de Nossa Senhora do Restelo,
que existiu primeiro naquele local.
Para perpetuar a memória do
infante D. Henrique, erigiu-se em Sagres um monumento modesto. A
portaria tem a data de 8 de Abril de 1836, reinando D. Maria II, e
é referendada pelo então ministro do reino, marquês de Sá da
Bandeira. O escultor do monumento foi Manuel Simões. Consta duma lápide
de mármore com 10 palmos e meio de altura e 5 e meio de largura,
embutida na parede sobre a porta interior da entrada principal da
fortaleza de Sagres. Este corpo é dividido em dois planos, tendo o
superior. em meio relevo, o escudo das armas do infante com a
legenda Talent de bien faire e
uma esfera armilar à direita e um navio à vela, à esquerda. O plano inferior compreende duas almofadas, na do lado esquerdo com
uma inscrição latina e na do direito com a versão em português.
Esta lápide foi lavrada no arsenal da marinha, levando o fabrico
mais de três anos. O encarregado de a levar a Sagres, foi o capitão-de-mar-e-guerra
Lourenço Germach Possolo. A colocação do monumento realizou-se
solenemente a 21 de Julho de 1840, assistindo a câmara municipal, o
capelão e a oficialidade de guarnição, o governador da praça, e
outras pessoas. Em 1844, o abade titular de Santa Eulália de Rio de
Moinhos, António Dâmaso de Castro e Sousa, mais conhecido pelo
abade de Castro, requereu ao governo para ser colocada uma estátua
do infante D. Henrique na sala do risco do arsenal de marinha, e
sendo nomeada uma comissão para estudar o assunto, decidiu ela que
a estátua devia ser levantada de Belém. Afinal nada se fez, até
que, na sessão da Sociedade de Instrução no Porto, realizada em 4
de Março de 1882, houve uma proposta para que se erigisse uma estátua
ao grande navegador. Depois de muitos trabalhos e contrariedades,
constituiu-se em 1892 uma grande comissão que dedicadamente
trabalhou, celebrando-se no Porto, sua terra natal, o centenário do
infante D. Henrique com toda a solenidade e brilhantismo.
Efectuaram-se as festas nos dias 1, 2, 3 e 4 de Março de 1894,
sendo os dias 3 e 4 considerados de grande gala, por decreto de 28
de Fevereiro de 1894. No dia 4 foi solenemente assente a primeira
pedra no momento, na praça do Infante D. Henrique, assistindo a
esta cerimónia suas majestades el-rei senhor D. Carlos e a rainha
senhora D. Amélia, representantes do governo, autoridades, etc. O monumento é obra do escultor Tomás Costa, e inaugurou-se, também
com a assistência da família real, em31 de Outubro de 1900.
Publicou-se no Porto em 1894
um livro, O
centenário do
infante D. Henrique, comemorativo do centenário henriquino,
profusamente ilustrado, com muitos artigos e notícias curiosas. Em
Londres, no ano de 1868, publicou-se uma grandiosa obra intitulada:
The life of Prince Henry of Portugal, surnamed the navigator, de que é
autor Richard Henry Major. No Archivo
Pittoresco, vol. IX vem a biografia do infante D. Henrique,
escrita por Luís Augusto Rebelo da Silva. Também se encontram
artigos no Summario de varia historia, do Dr. José Ribeiro Guimarães, vol.
IV, pág. 50; nos Varões e
Donas; Occidente de 1894, número dedicado ao centenário
henriquino, etc.
Transcrito por Manuel Amaral
|